Título: BUSCA POR NOVOS PMS ESTÁ CADA VEZ MAIS DIFÍCIL
Autor: Fábio Vasconcellos
Fonte: O Globo, 09/10/2005, Rio, p. 31

Apesar de concursos feitos em 2004, mais de 50% das 4 mil vagas estão abertas, agravando problema de policiamento

Reclamação recorrente entre os cariocas, a falta de policiamento ostensivo em alguns bairros não ocorre apenas devido à má distribuição do efetivo de PMs. Tem sido cada vez mais difícil aprovar candidatos para a Polícia Militar. No concurso realizado no primeiro semestre do ano passado para preencher 4 mil vagas, 51.260 homens e mulheres se inscreveram, mas apenas 738 (1,4%) foram aprovados em todas as fases. O governo do estado insistiu e fez outra seleção no segundo semestre com 22.584 candidatos. Desses, apenas 402 (1,8%) inscritos se formaram - outros 300 ainda estão sendo avaliados.

Como ainda restam mais da metade das 4 mil vagas oferecidas, o comando da Polícia Militar decidiu há uma semana fazer um terceiro concurso, mas as expectativas não são nada animadoras. Para a PM, o alto índice de reprovação (97% na prova escrita) deve-se principalmente à fraca formação dos candidatos. Desde o governo anterior, a seleção para novos policiais não vivia uma situação semelhante. No concurso de 2001, das 60 mil pessoas que se candidataram para quatro mil vagas, cerca de três mil foram aprovadas.

Nível de exigência das provas aumentou

Em parte, o alto índice de reprovação nos dois últimos concursos pode ser explicado pelas mudanças na elaboração do teste escrito. Em 2001, as provas foram elaboradas pela própria Polícia Militar, mas em 2004 passaram a ser de responsabilidade da Fundação Escola de Serviço Público do Estado do Rio (Fesp). A PM acredita que houve um aumento do nível de exigência que se refletiu no percentual de reprovação.

- Vários candidatos sequer lêem o edital e com isso são reprovados após as provas escritas por não atenderem a exigências como a altura mínima de 1,68 para homens. Por outro lado, notamos que a formação escolar de muitos é bastante fraca o que aumenta ainda mais a reprovação nas provas escritas - explica a coronel Ana Cláudia Ciciliano, chefe do Centro de Recrutamento e Seleção de Praças da Polícia Militar.

Entidade: baixo salário é fator desestimulante

Na primeira etapa da seleção (prova escrita), os candidatos fazem provas de matemática, português e de redação. No primeiro semestre do ano passado, 1.394 (3% dos 51.260 inscritos) foram aprovados nessa fase; no segundo semestre, foram 1.161. Daí em diante, os candidatos foram sendo eliminados nos cinco testes seguintes: antropométrico, psicológico, médico, físico e social. Em cada uma dessas etapas, cerca 15% dos inscritos são reprovados.

Para o presidente da Associação de Cabos e Soldados do Estado do Rio, Vanderlei Ribeiro, o baixo índice de aprovação é resultado das péssimas condições de trabalho do policial militar. Ribeiro acredita que baixo salário oferecido (de R$780) não tem atraído pessoas mais qualificadas:

- Se houvesse melhores salários, planos de carreira, e um projeto habitacional para os policiais, acredito que candidatos de melhor nível procurariam o concurso. Como uma pessoa que estudou durante anos vai entrar numa profissão de alto risco sem ter garantias fundamentais do estado?

O presidente dos Ativos, Inativos e Pensionistas da PM e dos Bombeiros do Rio (Assinap/RJ), Miguel Cordeiro, faz críticas ainda mais contundentes. Segundo ele, o déficit de policiais nas ruas é agravado pelo grande número de profissionais em desvio de função.

-- São pelo menos três mil policiais cedidos para outros órgãos do estado. Sem conseguir aprovar candidatos e também sem trazer estes PMs de volta, não resolveremos o problema - afirmou Cordeiro.

O subchefe de Relações Públicas da PM, major Oderlei Santos, explica que a cessão dos policiais obedece a critérios da corporação. Santos acrescentou ainda que a Polícia Militar tem procurado aumentar o efetivo através de concursos públicos, mas que não vai baixar o nível de exigência das provas. Atualmente a PM tem cerca de 38 mil homens, mas sofre baixas constantes por mortes no trabalho e problemas de desvio de conduta. Só este ano, 108 policiais foram afastados, sob a acusação de envolvimento com o crime.

- A reprovação de muitos candidatos mostra que temos sido cada vez mais exigentes porque queremos pessoas mais qualificadas para a função - disse o major.

Santos alega que a dificuldade de seleção de novos PMs é um problema que atinge outros concursos públicos no país.

Legenda da foto: CANDIDATOS FAZEM prova para a PM no Maracanã: no ano passado, pouco mais de mil inscritos foram aprovados nos dois concursos realizados