Título: 'Teremos sangue'
Autor: Roberta Jansen
Fonte: O Globo, 10/10/2005, O Mundo, p. 20

Conselheiro do governo do Haiti e especialista nas conturbadas relações entre seu país e a República Dominicana, Guy Alexander alerta para o recrudescimento da violência na fronteira.

Por que as relações entre dois países que dividem a mesma ilha e têm origens semelhantes são tão complexas?

GUY ALEXANDRE: A história complexa das relações tem origem no fato de a República Dominicana ter nascido da separação do Haiti, não de uma ruptura colonial. Portanto, existe um anti-haitianismo histórico, trata-se de um elemento de definição da cultura dominicana em relação ao Haiti. Na ditadura de (Rafael) Trujillo houve matanças de haitianos e criou-se um anti-haitianismo de Estado fundamentado em estereótipos e preconceitos.

Depois disso não houve avanços?

ALEXANDRE: Nos últimos quinze anos havia uma tendência à normalização das relações. Mas desde maio deste ano, temos visto a reativação da ideologia racista anti-haitiana e de grupos ultranacionalistas. Em maio, no Norte da República Dominicana, mataram uma mulher e feriram seu marido. O crime foi atribuído a haitianos e muitos foram perseguidos com machetes e paus. Com o pretexto de proteger os haitianos, o governo repatriou mais de duas mil pessoas em apenas dois dias (estima-se que de 500 mil a 800 mil haitianos vivam na República Dominicana). Em junho, na mesma área, foi encontrado o cadáver de um jovem dominicano. Voltaram a perseguir haitianos e a repatriá-los. Há três semanas, quatro jovens haitianos foram atacados por grupos dominicanos e queimados. Três morreram.

Qual foi a reação das autoridades?

ALEXANDRE: O preocupante é que as autoridades parecem considerar tais casos eventos isolados. Não sei se isso será debatido nas eleições. Mas não são casos isolados, se repetem há quatro meses. O fato é que, dentro de pouco tempo, teremos sangue. Bem, a verdade é que já temos sangue.

Há algum fundo de verdade nas denúncias de que haitianos são escravizados na República Dominicana?

ALEXANDRE: Os haitianos ilegais vivem em condições inaceitáveis, reconhecidas pelas próprias autoridades dominicanas. Mas não ajuda chamar de escravidão porque gera falsas polêmicas. Milhares de haitianos vivem e trabalham de forma totalmente ilegal. É do interesse dos dois países que cheguemos a soluções comuns.