Título: VOTO E ESPERANÇA PARA A LIBÉRIA
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Fonte: O Globo, 12/10/2005, O Mundo, p. 28

Eleição emociona país. Ex-jogador e economista são favoritos

MONRÓVIA

Centenas de milhares de liberianos passaram boa parte do dia de ontem em filas em seções eleitorais em todo o país. Alegres por estarem votando depois de 14 anos de uma sangrenta guerra civil, os eleitores esperaram horas nas filas para escolher o novo presidente, senadores e deputados no Estado moderno mais antigo da África e um dos mais pobres do planeta.

Milhares de eleitores chegaram nas seções eleitorais muito antes de elas abrirem. Na capital, Monróvia, muitos já estavam nas filas às 3h, cinco horas antes de a votação começar. Ainda assim, poucas foram as urnas que puderam ser fechadas às 18h e a comissão eleitoral decidiu que elas permaneceriam abertas até que o último eleitor votasse. Esperava-se que algumas só fossem seladas depois da meia-noite. Idosos e mulheres com crianças de colo aguardavam pacientemente nas filas.

¿ Mesmo que eu tenha que ficar aqui até meia-noite, estou feliz. Ficarei aqui e votarei. Esta eleição vai mudar nossas vidas aqui na Libéria ¿ proclamou o comerciante Joseph Kamara.

Ao todo, 22 candidatos disputam a Presidência, mas dois parecem ter vantagem sobre os demais, pelo menos a se levar em consideração a presença de simpatizantes nos últimos comícios: o ex-jogador de futebol George Weah e a economista Ellen Johnson-Sirleaf. Entre os demais concorrentes há desde advogados e comerciantes até caudilhos locais que participaram ativamente da guerra fratricida liberiana.

Os votos começaram a ser contados ainda ontem e hoje já devem ser divulgados os primeiros boletins. O resultado oficial só será revelado no dia 26. Caso nenhum candidato consiga mais da metade dos votos, como é esperado, haverá um segundo turno no dia 8 de novembro.

As pesquisas de opinião realizadas não são consideradas confiáveis por falta de condições de se avaliarem as preferências no interior do país. A incerteza sobre o vencedor não impede, no entanto, que grande parte dos eleitores tivesse confiança de que a eleição marcará o início de uma nova era para o país.

¿ Quero que nós consigamos um bom líder. Um que ajude nossas crianças com educação gratuita. Chega de guerra ¿ disse Abbie Bomimah, sorridente, depois de ter votado em Tubmanburg, pequena cidade ao norte de Monróvia.

A guerra civil da Libéria se tornou mundialmente conhecida devido à prática generalizada nos grupos armados de recrutarem menores de idade como combatentes. As imagens de crianças drogadas portando fuzis Kalashnikov e lança-rojões rodaram o mundo.

Calcula-se que cerca de 250 mil pessoas foram mortas nas batalhas e quase um terço da população de 3,4 milhões de pessoas teve que fugir de casa por causa dos combates. Os confrontos acabaram se espalhando e guerreiros liberianos se envolveram na guerra civil de Serra Leoa. O então líder da Libéria, Charles Taylor, que se refugiou na Nigéria em 2003, é réu ausente no tribunal da ONU para os crimes de guerra em Serra Leoa.

A guerra civil acabou há dois anos, com um grande acordo entre governo, grupos rebeldes e entidades civis que se tornou possível depois de Taylor deixar o país. Em outubro de 2003, Gyude Bryant recebeu um mandato interino de dois anos para comandar a reconstrução do país, desarmar as milícias e preparar as eleições de ontem.

Situação ainda é volátil segundo ONU

Uma missão da ONU na Libéria, com milhares de militares em quase todas as regiões do país, completou o desarmamento dos grupos rebeldes no fim do ano passado, mas considera que a situação ainda é volátil, podendo explodir caso aconteça um ataque contra algumas das milícias.

Apesar da confiança dos eleitores, observadores internacionais afirmam que a missão do próximo presidente será muito difícil. A infra-estrutura física e econômica do país praticamente deixou de existir. A expectativa de vida, segundo o Programa de Desenvolvimento da ONU, é de apenas 42,4 anos e o analfabetismo é de 44,1% entre os maiores de 15 anos. A Libéria é um dos 14 países que sequer ocupam uma colocação no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, pois não tem dados confiáveis devido ao estado caótico da nação.

¿ É preciso reformar o setor de segurança, o sistema judiciário, restaurar o império da lei, fortalecer os serviços públicos. Ele (o próximo presidente) terá um trabalho pesado pela frente ¿ disse Alan Doss, chefe da missão de paz da ONU na Libéria.