Título: LATINOS BUSCAM ACORDO SOBRE DÍVIDA
Autor: Vagner Ricardo
Fonte: O Globo, 03/11/2004, Economia, p. 19
Grupo do Rio vai discutir restrições que endividamento externo impõe ao desenvolvimento
No encontro que abriu ontem, na capital fluminense, a XVIII reunião do Grupo do Rio (formado por 19 países da América Latina e do Caribe), coordenadores das delegações alinhavaram o texto que será discutido hoje por chanceleres e amanhã pelos chefes de Estado das nações envolvidas. Segundo fontes diplomáticas, um dos assuntos que mais preocupam os países são as restrições que a pesada dívida externa impõe aos programas sociais e de desenvolvimento.
A proposta de que 20% da dívida externa dos países latino-americanos fosse convertida em investimentos no setor de infra-estrutura, no entanto, foi descartada nos encontros preparatórios. Isso porque a estrutura de débito é diferente entre as nações.
A perspectiva dos diplomatas é de que seja encampada uma proposta feita pelo Brasil ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O país sugere que os investimentos em infra-estrutura não sejam contabilizados como gastos no cálculo do superávit primário.
Entre outros tópicos, a declaração dos chefes de Estado deve referendar novos mecanismos de financiamento, como a criação da chamada Autoridade Sul-americana de Investimentos (ASI). Esse órgão destinaria recursos para a infra-estrutura, com o retorno proveniente dos ganhos dos próprios projetos.
Plano mundial de combate à fome estará em debate
A discussão sobre a ASI é complexa e exigirá estudos posteriores para implementá-la, adiantou o coordenador nacional do Brasil no Grupo do Rio, ministro Marcelo Vasconcelos. Ele informou que, a pedido do Peru, uma consultoria internacional fez o esboço de como poderá funcionar a ASI.
As discussões que se encerram na sexta-feira incluem projetos sobre multilateralismo, fortalecimento das Nações Unidas e mudanças na Organização Mundial do Comércio (OMC). Também estão na agenda as soluções para a crise do Haiti e o apoio do Grupo do Rio ao programa mundial de combate à fome e à miséria, já defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na ONU.
Segundo Vasconcelos, a declaração do Grupo do Rio reclamará maior transparência da ONU e de seus principais organismos. Por ser uma manifestação de desejo, contudo, o texto não chegará a indicar as mudanças necessárias.
Os chefes de Estado começam a chegar ao Rio hoje, embora a grande maioria seja esperada apenas amanhã, dia da sessão inaugural da cúpula presidencial. Até ontem, além de Lula, anfitrião do evento, presidentes de dez países haviam confirmado presença: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guiana, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. Fontes diplomáticas disseram que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, também deve comparecer.