Título: `VITÓRIA SE USA COM MODERAÇÃO'
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Fonte: O Globo, 03/11/2004, O país, p. 3
Alckmin evita falar da eleição para a Presidência em 2006, mas critica o governo Lula e o PT
Neto de mineiros, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), recusou-se a dizer se vai se candidatar à Presidência em 2006 nas 14 vezes em que a questão lhe foi formulada durante quase uma hora de entrevista ao GLOBO. Para ele, adiantar o debate eleitoral significa encurtar o governo. E um bom governo se traduz em maiores chances eleitorais. Mas não titubeou em criticar o governo Lula e o PT. Segundo Alckmin, o PT tem um modelo centralizador e o governo está perdendo a chance de aproveitar o cenário externo favorável para acelerar o crescimento. Leia a entrevista concedida ontem e encerrada quando chegou a hora de ele ir para a missa do Dia de Finados.
Como o senhor avalia o resultado das eleições para o PSDB?GERALDO ALCKMIN: Foi bom. Bom nível. Boa campanha. Aqui em São Paulo a população participou, foi aguerrida. Substantiva. Bons debates. Temas importantes. Foi muito produtivo. Foi uma campanha que vem consolidar o processo democrático.Esta consolidação fortalece o PSDB para as próximas disputas? Qual a avaliação para o futuro?ALCKMIN: O PSDB se enraizou nos grandes centros. O partido nasceu congressual, de cima para baixo. Agora está criando bases. E é um crescimento fora do governo federal, que é mais verdadeiro. Mas temos que ter consciência da responsabilidade. Vitória se usa com moderação. O PSDB ocupou o espaço anti-PT deixado pela derrota do malufismo?ALCKMIN: O PSDB ocupou o espaço tucano. Não acredito em campanha negativa, que alguém vai ganhar porque é contra isso ou aquilo. Quando o PT começou a deixar o paz e amor de lado e bater eu disse: `Olha, isso não vai dar certo¿. Você não cresce falando mal dos outros. Então o PSDB ganhou pelo que representa, pela seriedade, pela capacidade de governar e pelo bom candidato. Todos os analistas políticos dizem que o caminho natural é que o senhor seja candidato a presidente em 2006. O senhor será candidato?ALCKMIN: Estamos em 2004, né? Está longe. Tem dois afobados: político e jornalista. Agora é trabalhar, arregaçar a manga e fazer um bom governo. A entrada de Serra na prefeitura aumenta as chances de que seja o senhor o candidato do PSDB na disputa contra o PT em 2006?ALCKMIN: Se você analisar o PSDB, foi importante a vitória do Serra e em outras cidades importantes também. O PSDB teve um bom desempenho na eleição. Agora você tem a oportunidade de governar bem e fazer um bom trabalho. Política é serviço. Porque ganhou agora vai facilitar lá na frente? Não. O povo distingue as coisas.Mas não ajuda o fato de o senhor ter apoiado Serra? Até por outros resultados, como Minas, onde Aécio Neves perdeu Belo Horizonte.ALCKMIN: Essa história de que Aécio não pode porque não ganhou Belo Horizonte e Tasso (Jereissati) não pode porque não ganhou Fortaleza não é verdade. Mas Tasso lançou o senhor.ALCKMIN: Tasso é um homem generoso. Mas os dois são grandes quadros. Nem eles querem antecipar esta discussão. Porque não podemos, principalmente nós que somos governo, permitir que o processo eleitoral contamine a administração. Você encurta o governo. Não temos o direito de permitir isso. O senhor se sente preparado para governar o país?ALCKMIN: Saio fortalecido, animadíssimo desta eleição para fazer um bom governo em São Paulo. Mesmo que o senhor evite botar a questão eleitoral em primeiro plano, restam apenas dois anos para cuidar de sua própria sucessão e decidir seu destino político. E nos dois casos não há muitas alternativas.ALCKMIN: Estamos falando de 2006, né? Está muito distante. O PSDB tem ótimos quadros aqui em São Paulo. E quanto a seu futuro político?ALCKMIN: O futuro a Deus pertence. Temos de fazer bem feito o que fazemos hoje. Tenho a preocupação de não avançar no governo e no PSDB nesta discussão porque temos de governar como se não tivesse eleição. O senhor nesta eleição ultrapassou os limites de São Paulo e viajou por outros estados. Isso não passa a impressão de que o objetivo é aumentar sua visibilidade nacional?ALCKMIN: Combinamos com Aécio, Tasso, Marconi Perillo e Artur Virgílio de fazer um esforço para visitar algumas cidades, mas certos de que, do ponto de vista eleitoral, não ia mudar muito, apesar do sentido político, de companheirismo. Você faz partido com programa e com pessoas. O senhor descarta Serra como candidato a governador em 2006?ALCKMIN: Serra acabou de dar uma entrevista reiterando que vai cumprir seu mandato de prefeito.Como o senhor avalia os dois primeiros anos de governo Lula?ALCKMIN: É cedo, não chegamos nem à metade do governo. Lula prometeu criar dez milhões de empregos. Isso é possível?ALCKMIN: Todos nós torcemos. Cada vez mais tem que estimular a ação empreendedora. Gerar emprego e renda é implementar um conjunto de políticas públicas. Há um fato bom, o mundo está crescendo. Se tem a menor taxa de juros da História, a maior liquidez da História. Estamos vivendo céu de brigadeiro. Temos que aproveitar essa oportunidade e pisar no acelerador. Isso não é eterno. Existe possibilidade de reaproximação política de PT e PSDB?ALCKMIN: No período militar, todos éramos "manda brasa", éramos do velho e bom MDB. Depois cada um seguiu seu caminho.Mas é um projeto de poder ou programático, ideológico?ALCKMIN: Há diferenças. E tem também questões parecidas, o que não é ruim. É uma prova de maturidade porque passaram a ser questões de consenso. Agora, temos diferenças de visão das questões, de como trabalhar a política e é bom para a democracia você ter partidos preparados para a alternância do poder.Comenta-se muito o sonho de uma chapa com o senhor e o prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL)...ALCKMIN: O prefeito reeleito é um dos maiores líderes do país. Sempre tivemos um relacionamento de muita parceria com PFL e com PPS também. Mas tudo a seu tempo. Gostamos dele. Cesar Maia é um homem inteligente, preparado. Mas 2006, em 2006.Mas não resta tanto tempo assim, 2004 está acabando.ALCKMIN: Se começar a discutir a sucessão agora, o governo começa a acabar e dificulta a governabilidade, começa o burburinho eleitoral. Já sonhou ser presidente? ALCKMIN: Nunca. Minha tarefa é fazer um bom governo. Imagine! Nunca sonhei nem ser prefeito de Pindamonhangaba. Política é destino.Mas o interesse eleitoral não é da natureza da política?ALCKMIN: Não devemos estimular uma coisa que é artificial. Ainda não tem eleição. A convenção é em julho, campanha em agosto e setembro e eleição em outubro. De 2006.Como o senhor avalia a relação do governo federal com o governo do estado até agora?ALCKMIN: Procuro colaborar ao máximo. Não tivemos resultados práticos tão bons certamente por causa da dificuldade de investimento do governo. Mas isso não é só com São Paulo.Seu governo fará mais cobranças ao governo federal quanto ao repasses de verbas?ALCKMIN: Claro. Ninguém faz favor no governo, você cumpre responsabilidades, faz projetos, é parceiro. O senhor reluta hoje em assumir uma candidatura para 2006 da mesma maneira que Serra evitava falar sobre a eleição em São Paulo. É estratégia de autopreservação?ALCKMIN: Essa discussão nem começou no partido. Cargo majoritário não é fruto de decisão pessoal, é resultado do processo. Portanto, o debate não começou nem deve começar. Temos outras tarefas, de trabalhar e fazer um bom governo. Serra deve agora preparar o governo.Antes da eleição, alguns pensadores do PSDB falaram em uma tendência de hegemonia do PT, com riscos para democracia e ações antidemocráticas geridas pelo governo federal do PT. O senhor enxerga esse risco?ALCKMIN: A democracia brasileira está cada vez se consolidando mais. Mas o PT tem o modelo centralizador, o que não é bom.Com Serra, o senhor avalia que terá mais facilidade para trabalhar pela cidade de São Paulo do que com Marta Suplicy?ALCKMIN: Nós procuramos sempre ter um bom relacionamento com a prefeita.O senhor conseguiu?ALCKMIN: Se pegar o setor de educação, temos matrícula integrada, nunca mais se viu filas em escola. No caso das enchentes, fizemos piscinão juntos. Com Serra, essas parcerias podem ampliar.Mas isso não pode ser interpretado como uma forma de o estado ter privilegiado à administração do PSDB em detrimento a do PT?ALCKMIN: Às vezes, até ao contrário. A última vez que um governador paulista conseguiu eleger um prefeito do mesmo partido faz 43 anos. Foi o Carvalho Pinto, que elegeu Prestes Maia.A prefeita Marta sai com avaliação muito favorável da prefeitura. Como o senhor explica o fato de um governo ter uma avaliação tão favorável e o governante não se eleger?ALCKMIN: Quando se perde uma eleição, e eu já perdi, começa-se a falar que se perdeu por questões pessoais ou porque errou na estratégia. A resposta é: perdeu porque faltaram votos, o resto é tudo subjetivo. Diferentemente do que muita gente achava, sempre considerei que favorito era o PSDB.