Título: Erros da campanha do sim
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 14/10/2005, O GLOBO, p. 2
As pesquisas mostram que a intenção de votar sim no referendo do dia 23 ainda é predominante mas que a margem vem se estreitando à medida que a campanha avança na televisão. Um dos muitos erros, formais e políticos, cometidos pela frente pró-desarmamento foi deixar fora da campanha seus principais líderes políticos, elegendo como protagonistas apenas representantes da sociedade.
Sendo a segurança pública uma atribuição dos governos estaduais, estranhamente não temos um só governador engajado na campanha. E eles teriam muito o que dizer sobre a contribuição dos crimes banais, produzidos pela presença de uma arma em cena, para o aumento da violência.
A ausência dos governadores da campanha do sim favorece o uso, pela frente adversária, da retórica que se vem mostrando eficiente, a de associar o referendo ao governo federal, com seu patente desgaste em função da crise política ¿ embora tenha partido da sociedade, dos movimentos pacifistas e de combate à violência, a idéia da consulta popular encampada pelo senador Renan Calheiros em seu projeto. Há boas indicações, inclusive nas correntes que circulam na internet, de que o grande comichão para votar contra o governo está encontrando oportunidade de se realizar no referendo.
Outros ausentes são os próprios líderes parlamentares da Frente Brasil Sem Armas e aqueles de diferentes partidos que, ao se apresentarem unidos na defesa do desarmamento, poderiam explicitar o sentido mais amplo e democrático da consulta. O presidente Lula e os ex-presidentes Sarney, Itamar e Fernando Henrique estão do mesmo lado mas não são vistos na campanha. Com o acirramento da luta política, tornou-se inimaginável vê-los juntos defendendo a mesma proposta.
Há muitas outras falhas, inclusive na própria linguagem da campanha do sim, diferentemente da outra, que tem tocado os pontos mais sensíveis de uma população insegura. Por exemplo, com a afirmação de que o governo, não oferecendo segurança, ainda quer desarmar os fracos e honestos deixando armados os bandidos. Estes últimos não vão se desarmar mesmo mas com a proibição do comércio, no mínimo enfrentarão uma redução da oferta ¿ sem falar na redução do crime banal.
O senador Renan Calheiros e o deputado Raul Jungmann, presidente e secretário da frente parlamentar pró-voto sim, dizem que é natural o crescimento do voto não, agora que seus defensores de fato apareceram. Quando só o outro lado falava, o sim chegou a ter intenções de voto de até 80%. Hoje, teria uma margem muito pequena, acima dos 50%, que seria suficiente para a vitória. Mas é nítido o avanço do não, faltando apenas dez dias para a votação.