Título: LULA E BUSH: BOM PARA OS DOIS
Autor: Helena Chagas
Fonte: O Globo, 15/10/2005, O País, p. 4
Planalto e Itamaraty estão tratando publicamente a vinda de George Bush ao Brasil, dia 6, como uma visita como outra qualquer, sem criar grandes expectativas. Mas pode render. Sem o estresse de sempre sobre Alca, há espaço para outros temas. Quem sabe até novidades sobre ONU.
Às voltas com problemas internos em seus países, Lula e Bush vão querer faturar politicamente. Para Lula, que sai da pior crise de seu governo e começa a reconstruir a imagem junto à opinião pública, a solidariedade do vizinho do Norte tem sua utilidade. No mínimo, cala a boca dos que acusam sua política externa de antiamericana.
Para Bush, com quem o presidente brasileiro tem ótima relação pessoal ¿ quase tão boa quanto a amizade entre a secretária Condoleezza Rice e o chanceler Celso Amorim ¿ é importante fortalecer a parceria com seu principal interlocutor na região. De quebra, o desgastado Bush pós-furacão mostra que tem diálogo com um dos principais líderes de esquerda do mundo em desenvolvimento, defensor de políticas mundiais de combate à pobreza.
Vão estar chegando ambos da Cúpula das Américas de Mar del Plata (Argentina), uma reunião com tantos presidentes que dificilmente produzirá algo concreto. Por isso, na chancelaria brasileira, as conversas olhos nos olhos da dupla Lula-Bush, ainda que em visita de um só dia, são consideradas mais importantes. Assuntos da pauta:
CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU ¿ O Brasil ainda alimenta esperanças, no atual governo, de se sentar à mesa como membro permanente. Depois de, junto com a China, ter jogado areia nesses planos na Assembléia das Nações Unidas em setembro, os EUA têm sido, nos bastidores, bem mais receptivos. Condoleezza já disse a Amorim que a posição de seu país não é a mesma da China ¿ radicalmente contra a reforma para não dar vez ao Japão. Defendeu a ampliação da participação dos países em desenvolvimento na ONU, admitindo que a estrutura da entidade não pode ser a mesma de sua criação, em 1945. E explicou ao chanceler brasileiro que não foi favorável ao debate em setembro por temer que a Assembléia do Milênio ficasse tomada pelo assunto, mas a conversa agora será retomada. Gato escaldado tem medo de água fria. O Itamaraty não fala no assunto. Mas está na pauta.
RELAÇÕES COMERCIAIS: OMC SIM, ALCA NÃO ¿ No momento, estão todos no mesmo barco, a negociação da OMC que deverá ser concluída em dezembro sobre redução de subsídios e acesso a mercados. Criador do G-20, o Brasil tem representado, ao lado da Índia, os países em desenvolvimento nas reuniões com EUA e União Européia. Enquanto o assunto não evoluir, não se fala de Alca. ¿Nessa questão, sou seguidor de Bush: a favor de eliminar todos os subsídios¿, diz Amorim, lembrando a posição americana pela redução dos subsídios na UE. Mas o Brasil quer que os EUA também reduzam.
HAITI ¿ Condoleezza esteve no Haiti e, na volta, telefonou a Celso Amorim para fazer um relato do que viu lá. Ela elogiou a atuação brasileira à frente da Minustah, as tropas da ONU, e agora ambos estão trabalhando pela intensificação da ajuda internacional ao país. Agora, a questão é tratar da transição e acertar o momento de sair e suspender a intervenção militar no país, provavelmente no primeiro semestre do ano que vem, após as eleições. Lula e Bush devem tratar do assunto.
DEMOCRACIA NO CONTINENTE ¿ Os Estados Unidos não deixam esse assunto de lado nem por um decreto, e seu principal alvo continua sendo o venezuelano Hugo Chávez. Publicamente, Lula defende sempre o colega ¿ ainda que, nos bastidores do Planalto, haja um certo cansaço em relação ao vizinho. Bush e Condoleezza devem reafirmar seu desejo de que o Brasil, pela sua liderança na América do Sul, seja uma espécie de intermediário nesse difícil diálogo.
VISTOS E ILEGAIS ¿ Há poucas esperanças de se obter uma flexibilização nas regras para entrada de brasileiros nos EUA. Mas o governo brasileiro quer garantir que os cidadãos que lá entraram ilegalmente e foram pegos pela polícia americana sejam tratados com dignidade. Os dois presidentes devem tratar da abertura de um novo consulado brasileiro dos EUA, desta vez em Atlanta, Geórgia, onde há grande concentração de brasileiros. O Itamaraty pleiteia isso há tempos, mas está esbarrando na resistência de autoridades norte-americanas.