Título: UMA MULHER INVISÍVEL NO ENCALÇO DE SADDAM
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 15/10/2005, O Mundo, p. 42
Há 24 anos Hania Mufti coleta provas que hoje servem de base para as acusações contra o ex-ditador do Iraque
WASHINGTON. Ela tem 48 anos. É uma mulher alta, magra e extremamente discreta. Se pudesse, seria invisível. Ela tem, de certa forma, conseguido isso, apesar de participar às vezes como oradora em seminários e conferências.
Amigos e assessores tomam o cuidado de solicitar aos fotógrafos presentes para que não registrem a sua participação. Trata-se de uma questão de segurança. Por isso, quando a escolheu em abril passado como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, a revista ¿Time¿ publicou apenas um curto artigo a seu respeito ¿ sem uma foto dela.
A partir da próxima quarta-feira o seu nome, Hania Mufti, certamente será mencionado muitas vezes pela mídia internacional, sem dúvida com destaque. Naquele dia deve começar o julgamento de Saddam Hussein e de dezenas de seus colaboradores, por crimes tão horrendos e abundantes que atingiram a categoria de genocídio.
E é graças a Hania que o Tribunal Especial Iraquiano ¿ criado em dezembro de 2003 pelo então pró-consul dos Estados Unidos, Paul Bremer, o chefe civil da ocupação americana do Iraque ¿ terá argumentos para fazer justiça. Pois a grande massa de provas a serem exibidas na corte, num julgamento que as autoridades prometem transmitir ao vivo pela televisão, foi colhida por ela ao longo de 24 anos de um corajoso, intensivo e minucioso trabalho de pesquisa.
Coleta de provas começou em 1981
Numa primeira etapa, iniciada em 1981, ela reuniu tais provas como representante da Anistia Internacional. O trabalho foi complementado a partir de 2000 ¿ na verdade, continua sendo ¿ como diretora do Human Rights Watch. Nascida em Amã, na Jordânia, e educada no Líbano e na Grã-Bretanha, Hania trabalhou sempre sediada em Londres ¿ mas realizando incursões no território iraquiano, na maioria das vezes sob risco de vida, durante a ditadura de Saddam Hussein.
Esse trabalho é que a obriga a tentar ser uma mulher invisível. Quanto menos o seu rosto for conhecido, maiores serão as chances de garantir sua sobrevivência. Mas não é por isso que Hania permanecerá nos bastidores desse julgamento ¿ e, sim, por causa de manipulações políticas que não só a afastaram de um papel mais atuante, como a desestimularam a participar efetivamente.
Em sua opinião, o julgamento de Saddam e sua quadrilha deveria ser feito pela Corte Criminal Internacional de Haia, e não por um tribunal estabelecido por forças de ocupação e sem qualquer experiência no ramo. O governo dos Estados Unidos, porém, insistiu em que o processo fosse conduzido por uma corte nativa, totalmente iraquiana, sem participação internacional ¿ muito embora os juízes encarregados dessa tarefa tenham sido escolhidos, claramente, sob os cuidados dos EUA.
¿ Nós acreditamos firmemente que os juízes que estarão envolvidos neste tribunal não têm habilidades suficientes para lidar com assuntos tão complexos e sem precedentes no Iraque ¿ disse Hania recentemente.
Devido aos procedimentos estabelecidos sob a influência das forças de ocupação, Hania terá de se resignar ao papel de observadora de uma história cujo desfecho seria a culminação de um sonho que ela cultiva há pouco mais de duas décadas.
Real dimensão do genocídio nunca será conhecida, diz
Sua intenção era castigar os culpados, o que certamente ocorrerá. Para ela, no entanto, o mais importante era a forma como o julgamento deveria ser realizado. O processo, ou seja, a apresentação dos fatos, a coleta de novos detalhes, a serem arrancados pela promotoria da boca dos próprios criminosos, era o que mais lhe interessava.
Esse aspecto, em sua opinião, ficará relegado a segundo plano. Tudo em nome de uma punição exemplar, de preferência rápida ¿ sem que seja conhecida toda a verdade, que fatalmente incriminaria (ainda que moralmente) colaboradores indiretos, como governos do Ocidente que em determinados momentos fizeram vista grossa aos abusos cometidos por Saddam, aliado na defesa de interesses geo-político-financeiros.
Pelas estimativas de Hania e do Human Rights Watch, o genocídio cometido no Iraque vai muito além do imaginado ¿ ou, pelo menos, estipulado até aqui, oficialmente. Desde o início dos anos 80 nada menos do que 300 mil pessoas foram desaparecidas. Armas químicas mataram mais dezenas de milhares, em especial no norte do país, a região dos curdos.
Hania, que na juventude pensava estudar patologia judicial, terminou se formando em sociologia. Mas, no Iraque, acabou passando meses dedicando-se à investigação de fossas coletivas. Ela reuniu provas materiais em várias regiões do Iraque, e recolheu depoimentos de sobreviventes de abusos do regime ditatorial.
¿ O que coletamos até aqui é, na verdade, apenas uma pequena fração dos crimes contra a Humanidade cometidos no Iraque ¿ disse ela, temendo que não seja conhecida a dimensão real do genocídio.
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