Título: Lula minimiza crise: `Situação é muito engraçada¿
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Fonte: O Globo, 19/10/2005, O País, p. 8
CRISE POLÍTICA: `TEMOS QUE NEM SER ARROGANTES NEM TÃO CALMOS A PONTO DE NÃO PERCEBER O QUE ESTÁ ACONTECENDO¿
Presidente diz em Moscou que no Brasil `se joga suspeição sobre todo mundo, mas se prova muito pouca coisa¿
MOSCOU. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ontem a minimizar as denúncias que envolvem deputados do PT e da base aliada e que já provocaram mais de 50 demissões no governo e na direção de seu partido. Em visita à Praça Vermelha, em Moscou, no último dia de sua viagem à Europa, Lula disse que até agora não foram encontradas provas das acusações contra os deputados acusados de envolvimento no mensalão:
¿ Este processo vai ter um fim, e acho que quando terminar tudo vamos ver o quanto tem de verdade, o quanto tem de mentira. Somente o tempo vai provar isso (as acusações). Por enquanto vivemos uma situação muito engraçada, em que se joga suspeição sobre todo mundo, mas se prova muito pouca coisa. Vai ter um tempo em que vai ter um veredito final ¿ disse.
O que o presidente chamou de engraçado fora classificado no fim de semana pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares de piada de salão.
Para o presidente, que falou sobre a crise depois de discursar numa reunião do Conselho Empresarial Brasil-Rússia, problemas fazem parte da política.
¿ Se não tivesse problema, não teria política, você resolveria tudo em um convento ¿ ironizou. ¿ Temos de aprender a conviver com isso (disputa política). Temos que nem ser arrogantes nem sermos também tão calmos a ponto de não perceber o que está acontecendo no Brasil e no mundo.
Lula disse que as provocações não vão tirá-lo do sério:
¿ Por maior que seja (a provocação), não vai me tirar do sério, do rumo que nós estabelecemos para a economia.
Ao ser perguntado por jornalistas brasileiros se esperava a renúncia de outros deputados petistas além do ex-líder na Câmara Paulo Rocha (PA), Lula desconversou:
¿ Não esperava nada. Os deputados estão dentro do Congresso, eles é que sabem o clima que estão vivendo lá dentro. Ontem (anteontem) eu falei com o ministro (das Relações Institucionais) Jaques Wagner às 8h da noite no Brasil, 2h da manhã aqui. Estava tudo tranqüilo.
Segundo o presidente, os deputados petistas João Paulo Cunha (SP), Professor Luizinho (SP), José Mentor (SP), Josias Gomes (BA) e João Magno (MG), que não renunciaram ao mandato, preferiram ¿fazer o debate político dentro da Câmara¿.
De coadjuvante a artista principal
Para ele, suas declarações otimistas sobre o Brasil são baseadas numa constatação:
¿ Houve a transformação do Brasil de país coadjuvante em artista principal na cena política internacional. Acabou o tempo em que o negociador brasileiro ia de cabeça baixa pedir favor a alguém. Não somos mais do que ninguém. Queremos ser apenas iguais. Queremos ser tratados como tratamos os outros e ser respeitados como respeitamos os outros. Passei metade da minha vida negociando e nenhum interlocutor respeita aquele que entra em negociação de cabeça baixa.
Logo após encontro com o colega russo, Vladimir Putin, Lula fez uma declaração formal à imprensa. Ele disse que Rússia e Brasil têm muito em comum e precisam se modernizar.
¿ Somos países de dimensões continentais, com extensos recursos naturais e parques produtivos altamente complexos. Países de industrialização tardia, nossas economias estão diante de desafios semelhantes. Precisamos nos modernizar, ganhar competitividade, mas, sobretudo, atender às demandas de nossa sociedade.