Título: CPI dos Correios estranha gastos de Delúbio
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 19/10/2005, O País, p. 9
CRISE POLÍTICA: PETISTA TEM A ASSESSORIA JURÍDICA DE UM DOS ESCRITÓRIOS MAIS CAROS DO PAÍS, O DE ARNALDO MALHEIROS
Há duas semanas, ex-tesoureiro do PT desempregado comprou carro importado blindado por R$67 mil e pagou à vista
SÃO PAULO. Desempregado desde julho, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, que teve até o salário de R$1.300 de professor suspenso pelo governo de Goiás, mantém padrão de vida elevado. Duas semanas atrás ele comprou por R$67 mil, à vista, um Ômega australiano blindado e continua contando com os serviços do motorista Jorgeval, que foi demitido do PT há cerca de um mês mas ainda trabalha para ele. Além disso, o ex-tesoureiro do PT tem a assessoria jurídica de um dos escritórios mais caros do Brasil, o de Arnaldo Malheiros, que cobrou do PT R$300 mil para defender Delúbio até setembro.
O vencimento do contrato foi em setembro mas, segundo funcionários do escritório, Malheiros continua trabalhando para o ex-tesoureiro.
Jorgeval deve ser convocado
A CPI dos Correios estuda convocar Jorgeval. Ele trabalhava para o PT e serviu ao ex-tesoureiro mesmo depois de Delúbio ser afastado. O PT demitiu Jorgeval há um mês, sob alegação de contenção de despesas. Ele intermediou, ao lado do advogado goiano Paulo Vianna, a compra do Ômega. No dia 9 de agosto, o motorista foi o responsável por retirar da locadora RECC-Serviços o Ômega blindado preto DEA-7896, ano 2001, alugado por Delúbio. Por um mês de aluguel, ele, que está desempregado, pagou R$10.800.
Segundo reportagem de ¿O Estado de S. Paulo¿, o ex-tesoureiro comprou um Ômega blindado por R$67 mil, à vista, em uma concessionária de São Paulo. O homem que retirou o carro identificou-se como motorista de Delúbio. Parlamentares que integram a CPI acreditam que, por ter trabalhado com Delúbio durante todo o período do suposto mensalão, Jorgeval pode dar informações preciosas.
¿ A partir das novas informações ele fica sob suspeita. Caberia uma investigação sobre a ação dele ao redor do Delúbio, o que justificaria muito mais uma convocação ¿ disse o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), integrante da CPI.
Jorgeval foi durante anos uma das pessoas mais próximas de Delúbio. Chegava a trabalhar semanas sem descanso levando o ex-tesoureiro para a casa dos pais, em Buriti Alegre (GO). Em uma reunião do diretório nacional do PT, Jorgeval foi o portador de uma carta do ex-tesoureiro pedindo a suspensão temporária de sua filiação ao partido.
O Ômega é mais um no rol de casos suspeitos de uso de carros de luxo por petistas envolvidos com o mensalão. Primeiro foi o Land Rover do ex-secretário-geral Sílvio Pereira, pago pela GDK Engenharia, que tinha negócios com a Petrobras. Sílvio Pereira saiu do partido por causa da descoberta do presente.
Depois, foi o Mitsubishi Pajero usado pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP). O automóvel DJH 8255 estava em nome de Valdir Roque, ex-assessor do deputado que hoje trabalha para o prefeito de Osasco, Emidio de Souza (PT), apadrinhado pelo ex-presidente da Câmara.
Delúbio foi perguntado na CPI pelo uso do Ômega alugado na RECC. Disse que o carro, pelo qual pagou R$10,8 mil por um mês de uso, havia sido alugado pela sua mulher, Mônica Valente, integrante da executiva nacional do PT. Na verdade, porém, Mônica alugara um outro Ômega, da empresa Totality, pelo qual pagara R$4.200 por cinco dias.
¿Existem muitos fanáticos¿
Segundo o advogado Paulo Vianna, amigo de Delúbio há décadas, o ex-tesoureiro pediu ajuda para vender o Corolla e comprar um carro blindado.
¿ Ele vendeu um Corolla 2005 por R$60 mil e comprou um Ômega 2000 por R$67 mil. Foi isso ¿ disse o advogado.
Quem deu o argumento final foi Carlão, irmão de Delúbio.
¿ Ele disse: em religião, política e futebol existem muitos fanáticos. Vai que aparece um fanático aí e causa um mal irreversível ¿ relatou o advogado.