Título: A CULPA DOS RICOS
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 17/10/2005, Economia, p. 14

Crescimento mundial está ameaçado por desequilíbrios de nações mais prósperas, diz G-20

Atrajetória de crescimento da economia mundial, com boas perspectivas para os próximos anos, está sendo ameaçada por fatores de desequilíbrio que, pelo menos no curto prazo, não apresentam solução: a alta nos preços do barril de petróleo, os déficits comercial e em conta-corrente dos EUA, os ainda fracos mercados domésticos de União Européia (UE) e Japão e o câmbio artificialmente desvalorizado da China. Com exceção do câmbio chinês, a maioria dos riscos vem de economias ricas ou desenvolvidas, numa situação inédita na história financeira mundial nos últimos anos.

O diagnóstico foi traçado ontem ao final da reunião de ministros da Fazenda e presidentes de Banco Central do G-20 ¿ grupo que reúne os maiores países ricos e economias em desenvolvimento do mundo. O encontro terminou com a comunidade financeira internacional descrevendo, em um documento oficial, suas preocupações com o petróleo caro, a necessidade de reformas nos dois maiores organismos de finanças internacionais (FMI e Banco Mundial), a urgência de um acordo na última reunião da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o envelhecimento populacional no planeta.

Preço do petróleo é a principal ameaça

Fora do papel, no entanto, o câmbio chinês e os déficits americanos ocuparam bom espaço nas conversas, ainda que todos achem que os dois problemas não têm um nível de risco tão elevado quanto os explosivos preços do petróleo.

¿ O petróleo em alta é hoje a grande ameaça ao desequilíbrio das finanças mundiais, mas há uma preocupação da comunidade internacional com os ricos, especialmente com os déficits americanos e com a falta de reação das economias da União Européia e do Japão, ainda que o Japão tenha demonstrado recentemente estar se recuperando ¿ afirmou o presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles.

O presidente do G-20 este ano, o ministro das Finanças da China, Jin Renqing, afirmou que a elite econômica e financeira mundial vai recomendar aos países uma ação conjunta para tentar reduzir a influência negativa da alta do barril do petróleo no crescimento e na inflação mundiais. A estratégia inclui a elevação dos investimentos em produção e refino de petróleo, especialmente naqueles países que vêm segurando o aumento na oferta para tentar lucrar com os preços altos, como a Arábia Saudita e o Irã.

Também se pensa em aplicar uma redução de subsídios ao consumo de combustível, como faz a maioria dos países asiáticos, e estimular a economia no consumo de energia.

¿Temos a preocupação de que preços altos e voláteis do petróleo possam aumentar as pressões inflacionárias, desacelerar o crescimento e causar instabilidade na economia global¿, afirmaram os países no documento final do encontro. Um recado para os países produtores de petróleo ¿ e seus números nem sempre realistas ¿ foi dado: ¿Precisamos também reforçar a transparência no mercado de petróleo para melhorar a sua eficiência¿.

¿Desequilíbrios globais e sentimentos protecionistas¿ também foram lembrados pelo G-20 e, mais uma vez, o recado foi para os países ricos. No primeiro caso, os riscos são os déficits americanos, bem como a ainda fraca economia européia. No segundo caso, a relutância dos países ricos em reduzir os subsídios a seus agricultores, uma medida considerada fundamental para destravar as negociações da OMC, cuja última reunião da Rodada de Doha se realiza em Hong Kong este ano.

¿ Os desequilíbrios são uma ameaça ao crescimento porque são insustentáveis ¿ afirmou o diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato. ¿ E se forem corrigidos de maneira apressada, através de um dólar ainda mais fraco ou da alta dos juros nos EUA, os efeitos sobre a prosperidade mundial serão grandes.

¿ Os países ricos devem fazer concessões dolorosas nas conversas sobre o comércio mundial. E eu não exagero quando digo que 1,2 bilhão de pessoas que vivem em extrema pobreza dependem de Hong Kong ¿ afirmou o presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz.

Palocci também aposta em Doha

Para o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o ponto mais importante da reunião do G-20 foi justamente o consenso sobre a importância da reunião da OMC em Hong Kong terminar em acordo.

¿ Houve um sentimento muito positivo dos ministros sobre a importância de se chegar a um acordo na Rodada de Doha. Queremos fazer uma interferência sadia e positiva do setor financeiro nos setores comercial e industrial, no sentido de influenciar um acordo. Mas nem sempre este sentimento é correspondido pelos setores comerciais e industriais dos países, especialmente os ricos ¿ afirmou Palocci.

O ministro disse ainda que o Brasil prepara uma oferta de abertura para alguns setores, como o de resseguros ou o de serviços financeiros, tanto em parceria com o Mercosul como com o outro G-20, o grupo de países de forte produção agrícola.