Título: `Vai haver mais secas¿
Autor: Alan Gripp e Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 19/10/2005, O País, p. 15

Estudioso dos efeitos do desmatamento no clima, o cientista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), afirma que a seca na Amazônia é fenômeno passageiro, cuja causa mais provável é o aquecimento do Oceano Atlântico.

Qual a explicação para a seca na Amazônia?

CARLOS NOBRE: A maior probabilidade é que o principal responsável por essa seca seja um mecanismo atmosférico oceânico. As águas do Oceano Atlântico ao norte da América do Sul estão mais quentes que a média. Estão acima de 28 graus. Isso faz com que haja movimento atmosférico ascendente em cima das águas quentes. A pressão na superfície é mais baixa e o ar sobe ali. E o ar está descendo na Amazônia.

Voltou a chover, mas vai demorar para os rios voltarem a ficar cheios?

NOBRE: Exatamente. No aspecto meteorológico, não podemos dizer que a seca continua porque voltou a chover no extremo oeste da Amazônia. No aspecto hidrológico, o caboclo ribeirinho vê a chuva cair, mas o nível do rio está lá embaixo ainda.

Essa seca é inédita?

NOBRE: Temos poucos registros de secas tão intensas como esta. Certamente é a seca mais intensa no oeste da Amazônia. No Acre, desde que existem registros meteorológicos, esta é a seca mais intensa. No Centro da Amazônia talvez tenha havido duas ou três secas com essa magnitude em cem anos. E no leste da Amazônia ainda não dá para saber, pois a região é afetada pelo El Niño.

O intenso desmatamento da Amazônia influi na seca?

NOBRE: Se os desmatamentos atingirem uma dimensão muito grande, vão impactar o clima da região. Mas a dimensão dessa seca é maior do que a dimensão das áreas desmatadas. Ela afetou o extremo oeste da Amazônia, parte do Peru e da Bolívia, o oeste do Acre, que são áreas de floresta preservada.

A seca tem influência do efeito estufa do planeta?

NOBRE: Diretamente, não tem a ver. Parece que a razão primeira da seca na Amazônia é uma variação natural do complexo sistema climático do planeta. Mas há muitos estudos que mostram que se o clima continuar aquecendo, os extremos climáticos, como essa seca, como furacões intensos, tempestades severas e inundações, vão ocorrer com mais freqüência.

Como o senhor avalia essas mudanças climáticas?

NOBRE: Estamos no começo da aceleração do ciclo hidrológico, que é a evaporação, a formação de nuvens, as chuvas e o escoamento das águas. Esse ciclo se acelera com o aquecimento global. A aceleração do ciclo hidrológico está na raiz da projeção que fazemos do aumento da freqüência dos extremos. Vai haver mais secas, inundações e fenômenos intensos, extremos, climáticos e meteorológicos.