Título: GUERRA AO LATIFÚNDIO¿ AUMENTA TENSÃO
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 17/10/2005, O Mundo, p. 17

Oposição: expropriação de terras e empresas não reduz crise

CARACAS. ¿Quem tem um latifúndio é como quem anda com um carro roubado, mesmo que o tenha comprado¿. Com esta frase, o presidente Hugo Chávez explicou, num ato político há cerca de um ano, a essência de sua polêmica guerra contra o latifúndio. Segundo informou o ministro de Agricultura e Terras, Antonio Albarrán, dos 3,6 milhões de hectares que o governo considera latifúndios, ¿um milhão será recuperado este ano, para aumentar a produção agropecuária nacional¿. Paralelamente, o governo ordenou a expropriação de fábricas que pertencem a empresas nacionais e estrangeiras, entre elas a venezuelana Polar, principal produtora de alimentos do país.

Nos últimos meses, o governo ordenou a ocupação militar de dezenas de fazendas, supostamente ociosas, em nome da guerra ao latifúndio, ¿um mal social que atenta contra o bem-estar da maioria da população¿, segundo Albarrán. A agressiva estratégia provocou tensão entre produtores rurais, que temem ser vítimas da ofensiva. Na visão de especialistas, a reforma implementada por Chávez não resolverá a grave crise da produção agrária, que nos últimos anos despencou mais de 30%.

¿ O problema não são as expropriações. Na década de 60, a Venezuela implementou reforma agrária similar ou mais audaz do que a de Chávez. O problema é que a ocupação de terras nada resolve, porque o governo não tem um plano para reativar a produção agrária. É pura propaganda ¿ afirma o consultor em questões agrícolas Juan Luis Hernández, que participou da reforma dos anos 60.

Do outro lado do ringue, assessores do presidente defendem a política oficial.

¿ Quem gerou terror foram os meios de comunicação opositores. Violentos são os que possuem latifúndios e não ajudam o governo a saldar a dívida social com os setores mais humildes. Saldar essa dívida exige uma ação contundente ¿ afirma o jurista Carlos Escarrá, candidato a deputado pelo Movimento Quinta República (MVR), fundado por Chávez.

Segundo Escarrá, a Lei de Terras, prevista na Constituição de 1999, permite três medidas: expropriação de propriedades que não cumpram uma função social, confisco de terras adquiridas com dinheiro ilícito e resgate de terras que são propriedade do Estado e hoje estão em mãos de privados.

No caso das empresas, o panorama é ainda mais complicado. A expropriação de uma fábrica da Polar no estado de Barinas, terra natal de Chávez, desencadeou intenso debate. O presidente do grupo, Lorenzo Mendoza, disse que não pretende negociar com o governo (especula-se que o governo oferece indenização às empresas vítimas de expropriações) ¿pois a fábrica em questão está funcionando e a palavra negociação não pode ser aplicada¿. A Polar recorreu à Justiça. A resposta de Chávez, em rede nacional de rádio e TV?

¿ Não fique bravo, Lorenzo, vou lhe telefonar. (J.F.)