Título: A NOVA UTOPIA DE CHÁVEZ
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 17/10/2005, O Mundo, p. 17
Presidente confunde aliados e opositores ao defender `socialismo do século XXI¿ para a Venezuela
Quando chegou ao poder, em 1999, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, lançou a revolução bolivariana, inspirada no pensamento de Simón Bolívar, militar venezuelano que deu independência a Venezuela, Colômbia e Equador no século XIX. Hoje, após quase sete anos de gestão, Chávez lidera uma nova campanha para implementar o que denominou ¿socialismo do século XXI¿.
Nas principais avenidas de Caracas, gigantescos outdoors tentam impor a nova marca registrada do chavismo: ¿As missões bolivarianas melhoram o trem de sua vida. Rumo ao socialismo¿. Em jornais, programas de rádio e TV e conversas informais, a palavra socialismo se repete como nunca antes. O problema é que não existe um consenso sobre o caminho a ser escolhido pela Venezuela. Longe de traçar um rumo claro, Chávez instalou um debate que poderia provocar fissuras no próprio movimento chavista.
¿ Vivemos um momento de muita tensão. Os chavistas sabem o que não querem, não querem mais capitalismo. A questão é decidir o que querem, o conceito de socialismo do século XXI ainda é muito ambíguo ¿ diz a socióloga Margarita López Maya, autora do discurso que Chávez pronunciou após a vitória no referendo de agosto de 2004. Segundo ela, ¿o governo tem clareza sobre aspectos do novo modelo econômico que quer aplicar: inclusão social, direito de todos à cidadania e necessidade de acabar com a pobreza aberrante¿. O que não existe ainda, afirma, é um consenso sobre como avançar na implementação de um modelo que supere o capitalismo.
Nem chavistas, nem antichavistas são 50%
Com a oposição mergulhada numa crise que parece não ter fim (gerada pelo golpe de Estado de 2002, o fracasso da greve que paralisou o país em dezembro daquele ano e a derrota no referendo de 2004), os chavistas debatem o futuro de um país no qual, segundo pesquisas, mais de 50% da população é definida como ni-ni, nem chavista nem antichavista.
¿ Existem chavistas insatisfeitos, chavistas que querem comunismo, chavistas que querem um socialismo clássico e chavistas que consideram que o socialismo mudou e deve se adaptar. Queremos construir uma alternativa diferente ao capitalismo. Mas nosso setor, por exemplo, quer um modelo democrático, amplo, participativo. Não queremos ser Cuba. Certamente haverá dissidentes ¿ diz Franklin Rondón, coordenador da União Nacional de Trabalhadores da Venezuela.
Para o sindicalista, o país vive uma revolução dentro da revolução.
¿ Como a oposição está enfraquecida e continua perdendo tempo em conspirações que não levam a nada, estamos vivendo uma revolução dentro da revolução. Estamos debatendo para onde vai o país ¿ enfatiza Rondón, que acaba de enviar ao Congresso um projeto de lei que dá mais poder aos trabalhadores. Ele explica:
¿ Não queremos eliminar a propriedade privada, mas que os trabalhadores tenham um papel importante. Também exigimos que uma parte do capital seja destinada a programas sociais.
Durante encontro com governadores e prefeitos em novembro passado, Chávez questionou o capitalismo mas deixou claro que o comunismo não é opção para o país:
¿ O modelo econômico capitalista é inviável, impossível. Nós, os líderes, temos de ter muita clareza sobre isso. O comunismo é uma alternativa? Não! Não estamos pensando nisso neste momento. Os principais elementos da Constituição Bolivariana são um modelo econômico social, a economia social, a economia humanista e a economia igualitária. Não estamos planejando eliminar a propriedade privada, o projeto comunista não ¿ disse à época o presidente.
Assessores do governo tentam explicar o complexo pensamento chavista.
¿ O presidente é uma expressão do populismo e quando diz que caminha para o socialismo é porque reconhece que o populismo não é uma posição sustentável por muito tempo. Ele sabe que deve institucionalizar uma forma de governo, que precisa de uma cultura e optou pelo socialismo ¿ diz o general da reserva Alberto Muller Rojas, assessor dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores.
Para Rojas, as ¿missões bolivarianas¿, por exemplo, ajudam a reduzir desigualdades e criam uma consciência nas classes populares.
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