Título: Escassez de carne ajuda Brasil
Autor: Luciana Rodrigues e Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 18/10/2005, Economia, p. 25

Falta produto no mercado mundial e analistas esperam que embargo europeu seja curto

Adescoberta dos focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul, em meio a uma crise na agricultura, será um duro golpe para pecuaristas e frigoríficos. Mas analistas esperam um impacto reduzido nas exportações do Brasil graças, principalmente, a um cenário internacional que favorece a carne brasileira. Na pior das hipóteses, produtores e analistas prevêem uma redução de US$1 bilhão nas exportações de carne em todo o ano de 2006. É uma perda pequena frente às vendas externas totais do Brasil, que chegam hoje a US$8 bilhões por mês. Os especialistas explicam que falta carne no mercado mundial e, por isso, a União Européia (UE), maior mercado para o país, não conseguirá manter o embargo por muito tempo.

¿ O Brasil é o maior exportador mundial de carne. Argentina e Austrália não têm oferta suficiente. Essa escassez fará os compradores repensarem o embargo ¿ estima Fábio Silvera, da MS Consult, que espera a suspensão do embargo europeu em no máximo seis meses.

A crise veio depois de o campo amargar prejuízos com a quebra na safra de soja e com o dólar baixo. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que, este ano, haverá um recuo de 1,15% no Produto Interno Bruto (PIB, conjunto das riquezas) do agronegócio. Se considerada apenas a agropecuária, a queda deverá ser ainda maior: 9,9%. O prejuízo deste ano terá reflexo em 2006. Guilherme Bastos, da Agroconsult, prevê redução de até 8% na área plantada de soja ¿ a primeira das últimas seis safras. Além disso, a venda de adubos caiu 25,6% entre janeiro e julho.

Temor de queda no preço

Para José Carlos Hausknecht, da MB Associados, no caso da febre aftosa, o prejuízo vai depender do tempo em que a produção de São Paulo ¿ estado responsável por 60% das exportações de carne in natura e que concentra os frigoríficos habilitados a vender para a UE ¿ ficará sob embargo. Anderson Galvão, da consultoria Céleres, teme que, mesmo após o fim do embargo, haja um prejuízo no preço da carne brasileira vendida no exterior:

¿ As vendas do Brasil cresceram no rasto de crises sanitárias em EUA e UE, que tiveram vaca louca, e em Argentina e Uruguai, onde houve febre aftosa. Perdemos essa vantagem.

Ontem, o secretário de produção do Ministério da Agricultura, Lineu da Costa Lima, e o coordenador de combate às doenças, Jamil Gomes de Souza, deram explicações detalhadas à Comissão Européia. Mas a UE reiterou que a retomada das importações dependerá do controle da doença no país. Integrantes da Comissão acreditam que o embargo acabará apenas após o envio de uma missão de inspeção da UE.

COLABOROU Vivian Oswald, Especial para O GLOBO