Título: À ESPERA DE UM ATENTADO DOS EUA
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 18/10/2005, O Mundo, p. 30

Chanceler diz que Washington quer transformar Chávez em Allende

CARACAS. Nos quartéis da revolução bolivariana do presidente Chávez, dois sentimentos se misturam: a satisfação de ter levado saúde e educação a bairros humildes e o temor de sofrer um ataque dos EUA que impeça o processo revolucionário. ¿Fazemos trabalho de inteligência e tudo indica que estão preparando um atentado¿, disse ao GLOBO o ministro das Relações Exteriores, Ali Rodríguez Araque. Segundo ele, os EUA usam contra seu país a mesma estratégia usada contra o presidente chileno Salvador Allende, derrubado pelo golpe de Estado de 1973.

Segundo organismos internacionais e até mesmo do Instituto Nacional de Estatísticas da Venezuela (INE), o governo não conseguiu reduzir a pobreza, um dos principais objetivos da revolução bolivariana.

ALI RODRÍGUEZ ARAQUE: Primeiro, queria esclarecer que no caso da Cepal, por exemplo, essa questão das estatísticas foi discutida internamente e se chegou à conclusão de que muitas das coisas que estão sendo feitas na Venezuela não estão sendo medidas. Atualmente, 17 milhões de pessoas recebem atendimento médico, pessoas que nunca tinham recebido isso. Os mercados populares oferecem produtos muito mais baratos. Agora, pergunto, tudo isso reduz a pobreza?

As estatísticas, inclusive do INE, mostram um aumento do número de pobres...

RODRÍGUEZ ARAQUE: Bom, talvez o INE, como todos os demais organismos, deva rever a metodologia utilizada para medir a pobreza.

Alguns analistas consideram que a Venezuela está implementando a diplomacia do petróleo, utilizando seus recursos para selar alianças com países da região que seriam aliados num eventual conflito com os EUA.

RODRÍGUEZ ARAQUE: Temos uma estratégia petrolífera, que faz parte de nossa estratégia econômica, política e social. Os acordos que você menciona são parte dessa estratégia. No caso da América Latina, propusemos uma integração baseada na cooperação, na solidariedade e no respeito à soberania. Cada país tem fortalezas, no caso da Venezuela, temos recursos energéticos. A Argentina, por exemplo, tem produção de alimentos mas carece de energia. A cooperação entre nossos países é fundamental.

Além do desejo de fortalecer a cooperação existe também a necessidade de selar alianças para enfrentar a queda-de-braço com os EUA?

RODRÍGUEZ ARAQUE: Essas alianças são o resultado da cooperação. Essas políticas são boas para todos os países e para a Venezuela também, pois elas vão melhorar as condições de vida em nossos países e darão mais peso a esta região do mundo.

Chávez teme um ataque dos EUA?

RODRÍGUEZ ARAQUE: Você diria que isso é impossível?

Nada é impossível.

RODRÍGUEZ ARAQUE: Basta analisar a História recente da América Latina. Lembrar do que aconteceu no Chile com a ditadura de Pinochet. A estratégia (dos americanos) foi exatamente igual à que está sendo implementada aqui. Quando tentam isolar a Venezuela. Quando dizem, de forma sistemática, que a Venezuela representa um fator de instabilidade. Quando dizem que tem atitudes fundamentalistas, que financia grupos terroristas. Quando altos funcionários vão ao Brasil, à Argentina e a outros países....

O senhor se refere ao secretário da Defesa americano, Donald Rumsfeld?

RODRÍGUEZ ARAQUE: Sim. Qual o objetivo? Fortalecer o vínculo entre os países ou provocar seu colapso? Todos devem estar preparados para defender sua soberania e a principal preparação não refere-se às armas e sim à preparação do povo, criando consciência cívica para que todos saibam que devem defender a soberania.

Os EUA querem que Chávez termine como Salvador Allende?

RODRÍGUEZ ARAQUE: Sim, e não é fruto de nossa imaginação, temos informações e fatos que nos levam a pensar isso. Lembre-se das declarações do pastor (americano) Pat Robertson (que disse há cerca de dois meses que o governo americano deveria assassinar o presidente Chávez), ele fala em nome de outros. Ele expressou o que muitos pensam mas não se atrevem a dizer. Eles trabalham com esse fim. Temos informações, fazemos trabalho de inteligência e tudo indica que estão preparando um atentado. Não sei se será iminente, acho que não, o que sei é não será fácil. (J.F.)