Título: O drama de quem vive uma rotina violenta
Autor: Alan Gripp e Toni Marques
Fonte: O Globo, 20/10/2005, O País, p. 15

A violência sempre fez parte da rotina de Kely Maria Louzada, de 37 anos. Moradora da Mangueira, ela perdeu dois primos que se envolveram com o crime. Um deles foi assassinado pela vítima, que reagiu, em seu segundo assalto. O outro se envolveu com o tráfico de drogas e acabou morrendo numa briga pelo poder no morro. Seu cunhado ficou tetraplégico ao levar um tiro de um homem que tinha brigado com a mulher e estava bêbado.

¿ Ele estava num bar na entrada principal da Mangueira. O homem chegou lá transtornado, pegou a arma de um traficante e atirou. Além do meu cunhado, ele acabou atingindo uma menina também, que morreu ¿ relembra Kely.

Ela trabalha na ONG Associação Meninas e Mulheres do Morro e há dois anos viveu outro drama. Sua filha, então com 14 anos, teve que se mudar da comunidade para evitar o assédio de um traficante.

¿ Ela foi morar com a avó. Tenho um filho de 10 anos e tenho muito medo pelo futuro dele também.

Kely é a favor da proibição do comércio de armas. Mas, mesmo convicta de seu voto ¿Sim¿ no referendo, a líder comunitária diz estar dividida quanto à eficácia da proibição das armas. Ela confessa que, se tivesse condições, sairia do Rio.

¿ Nós, que vivemos a violência no dia-a-dia, temos muitas dúvidas. Aqui, mesmo se a pessoa não é envolvida no tráfico, tem sempre alguém da família que é. A dor é muito grande ¿ diz Kely, acrescentando que é a favor do desarmamento, mas também de uma discussão mais ampla sobre o problema do tráfico de drogas.