Título: SAI A CAMPANHA NA TV, CONTINUA A GUERRA DE VERSÕES
Autor: Alan Gripp e Toni Marques
Fonte: O Globo, 20/10/2005, O País, p. 15

Publicitários e cientistas políticos dizem que defensores da proibição foram menos incisivos que os adversários

BRASÍLIA e RIO. No último dia de propaganda gratuita do referendo na TV, os dois lados devem reforçar seus principais argumentos, já usados durante toda a campanha: os partidários do voto ¿Não¿ pregam que o direito adquirido pelo cidadão (no caso, o direito de comprar uma arma) não poderia ser anulado pelo referendo, e os publicitários do ¿Sim¿ vão dizer que o que está em jogo é a redução do número de mortes ¿ e o direito em jogo, no caso, é a vida das pessoas. Para a campanha do ¿Sim¿, armas compradas legalmente alimentam a violência, seja porque abastecem os criminosos por meio de roubos e furtos, seja porque aumentam a possibilidade de homicídios serem cometidos por razões banais, como discussão de trânsito, e ainda aumentam o risco de acidentes com armas de fogo em casa.

Publicitários e analistas políticos apontam uma vantagem para a fórmula adotada pela campanha do ¿Não¿, que deixou artistas e políticos de lado e trouxe a discussão também para a ineficácia das políticas de segurança. Em crise, o ¿Sim¿ trocou de publicitários e subiu o tom.

¿ Parece que o ¿Sim¿ entrou com um ar de quem já ganhou. E que o ¿Não¿ apelou para argumentos cívicos e conseguiu virar o jogo ¿ opinou o presidente do Clube de Criação de São Paulo, Carlos Righi.

Cientista político: modelo de campanhas não deu certo

Pelo lado do ¿Sim¿, a propaganda gratuita de rádio e TV termina hoje bem diferente de quando começou. Os filmes trocaram os depoimentos de personalidades pelo de vítimas de armas de fogo e de parentes. Também deixou de lado o discurso de paz para exibir estatísticas de violência, de gastos com saúde pública e lucros das empresas fabricantes de armas que apoiariam a campanha do ¿Não¿.

Para o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social, a reviravolta nas intenções é a prova de que o modelo adotado por campanhas políticas vitoriosas não se encaixou neste referendo:

¿ A discussão direta do tema adotada pelo ¿Não¿ teve mais resultado do que a campanha festiva, sem argumentos fortes e com um conjunto de declarações soltas.

A crise na campanha do ¿Sim¿ levou o comando da Frente Parlamentar Brasil sem Armas a trocar o marqueteiro Paulo Alves por Luiz Gonzales, responsável pela campanha vitoriosa de José Serra à Prefeitura de São Paulo. Já a equipe do ¿Não¿, comandada pelo publicitário Chico Santa Rita, e sua estratégia permaneceram intocáveis ao longo do período de propaganda gratuita.

¿ O argumento mais difícil de ser quebrado é aquele que diz ¿estão tirando os seus direitos¿. Acho que aqui o ¿Não¿ pegou na veia. As pessoas repetem isso o tempo todo, sem nem refletir que matar não é um direito ¿ analisa Carlos Righi.

Os erros e acertos das campanhas transformaram o Congresso num território de políticos-marqueteiros. Não há quem não opine sobre as estratégias adotadas pelos dois lados.

¿Sim¿ precisava de mais agressividade, diz político

Membro da frente Brasil sem Armas, o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) foi enfático ao dizer que a campanha que representa está errada. Nos últimos dias, repetiu o discurso de que o ¿Sim¿ precisava ser dito com mais agressividade.

¿ Nossa comunicação está falhando demais, tem que ser mais agressiva, mais comunicativa ¿ disse Cardozo, que defende o combate franco à idéia do direito de defesa. ¿ Temos que mostrar que o direito de uma pessoa ter uma arma pode prejudicar o direito de outra à vida.

Há também quem culpe o governo pelos problemas do ¿Sim¿. Caso do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ). Para ele, a reviravolta nas intenções de voto não depende apenas de uma mudança na publicidade, mas sim no comportamento do poder público.

¿ A campanha do ¿Não¿ tem um grande argumento, de que a proibição vai manter os bandidos armados e vai desarmar os homens de bem. Isso só pode ser vencido se o governo demonstrar que vai pôr em prática, junto com a proibição do comércio, um projeto sério de recolhimento de armas ilegais, como acontece na Colômbia. A sorte do referendo está nas mãos do governo ¿ sentencia Gabeira.

Para o sociólogo Michel Misse, a campanha do ¿Sim¿ não soube explorar os principais argumentos a seu favor e nem combater os argumentos que ele considera inconsistentes do ¿Não¿:

¿ A campanha do ¿Sim¿ vende mais medo que informação. Para o ¿Sim¿, o ponto forte é uso da arma de fogo em conflitos interpessoais, que deveria ter sido o foco principal desde o início. Para o ¿Não¿, tem mais apelo a questão do direito à legitima defesa, embora as pesquisas em vários países apontem que a maioria dos que reagem a assaltos morre.