Título: MUDANÇA DE RITMO
Autor: Flávia Barbosa e Patricia Eloy
Fonte: O Globo, 20/10/2005, Economia, p. 25

BC acelera redução de juros, que caem para 19%; taxa real ainda é a maior do mundo

OComitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) acelerou o ciclo de queda da taxa básica Selic ao reduzir ontem, de 19,5% para 19% ao ano, os juros que servem de referência para a economia do país. Em setembro, quando voltou a fazer cortes na taxa após um ano, a redução foi de 0,25 ponto percentual. A decisão, unânime após encontro de cerca de duas horas, foi tomada devido à inflação sob controle, confirmando as projeções da maior parte dos analistas de mercado.

Apesar do novo corte, o Brasil continua sustentando o título de país com o maior juro real do planeta: 13,6% ao ano, mais que o dobro do segundo colocado no ranking global, a China, com 6,6% ao ano, segundo levantamento da consultoria GRC Visão. Para deixar a primeira posição, hoje, seria preciso que o Brasil derrubasse a taxa Selic de 19% para 11% ao ano, o que corresponderia a um juro real de 6,5% ao ano, calcula o economista Jason Vieira, da GRC.

Nos últimos dias, havia crescido entre os economistas o temor de que o BC apelasse ao conservadorismo ¿ repetindo o corte de 0,25 ponto percentual ¿ devido às incertezas quanto ao comportamento dos juros americanos, que têm estressado o mercado internacional, com reflexos no Brasil. Mas a convergência das previsões do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para as metas de 2005 (5,1%) e 2006 (4,5%) foi um argumento mais forte.

Impacto econômico só no ano que vem

Economistas avaliam que, embora o corte na Selic tenha sido mais intenso em outubro, terá pouco ou nenhum efeito sobre a economia brasileira ainda este ano. De acordo com a teoria econômica, há um prazo de pelo menos três meses para que ações de política monetária tenham impacto na economia real, seja gerando mais consumo ou aumentando o investimento dos empresários.

¿ Ficou para 2006 (o impacto do corte de ontem). Só veremos alguma reação este ano se os juros futuros, que são usados como referência na concessão de crédito, caírem fortemente. Aí, sim, pode haver uma expansão do consumo. O nível de atividade econômica no terceiro trimestre ficou abaixo do esperado e, com isso, o empresariado não se animou ainda a aumentar investimentos. Não podemos esquecer que a taxa de juros real e efetiva ainda é absurdamente alta no Brasil ¿ pondera Antônio Licha, diretor do Instituto de Economia da UFRJ.

¿ Se houver algum impacto, será apenas psicológico ¿ diz Vieira, da GRC Visão.

Tanto ele quanto Licha esperam novas quedas de 0,5 ponto percentual na Selic até o início do ano que vem, o que poderia levar a taxa para 15% ao ano até o fim de 2006.

O BC manteve uma política de aperto nos juros por nove meses seguidos para reduzir a expectativa de inflação. Em setembro do ano passado ¿ quando o Copom subiu a Selic de 16% para 16,25% ao ano ¿ o mercado esperava inflação pelo IPCA de 5,7% para este ano. Segundo o último boletim semanal do BC, o mercado agora espera IPCA de 5,22% este ano e de 4,69% em 2006.

A próxima reunião do Copom será nos dias 22 e 23 de novembro e até lá os juros não serão alterados. A expectativa do mercado financeiro é que no mês que vem e em dezembro o Copom repita a dose, com cortes de 0,5 ponto percentual, levando a Selic a encerrar 2005 em 18% ao ano.

O corte de ontem terá pouco efeito sobre os juros do crédito ao consumidor. De acordo com a Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), como as taxas médias são da ordem de 141,12% ao ano, quase dez vezes mais que a Selic, o repasse da queda deve ser mínimo. Nos empréstimos pessoais em financeiras, por exemplo, em que a taxa média está em 11,74% ao mês, a Anefac estima que os juros recuem para 11,70%. Isso significa que, em 12 meses, em vez de pagar 278,88% de juros, o cliente pagará 277,26%.

Indústria e comércio consideram bastante limitados os efeitos do corte da Selic sobre a economia. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, o Copom continua ignorando o fato de que os juros elevados são um sério obstáculo ao crescimento econômico.

¿ Estamos com as variáveis que importam ao Banco Central, como a inflação e o nível de crescimento da demanda, alinhadas para impulsionar a economia, mas o Copom continua com o pé no freio ¿ criticou.

Já para a Firjan a contínua redução da Selic deverá garantir uma recuperação da atividade econômica nos próximos meses, mas é preciso reduzir mais os gastos públicos. Orlando Diniz, presidente da Fecomércio-RJ, afirma que havia espaço para uma queda de 0,75 ponto percentual. E Carlos Eduardo Moreira Ferreira, presidente em exercício da Confederação Nacional da Indústria (CNI), diz que espera que o ritmo de queda seja acelerado nos próximos meses.

A adesão de 90% dos 4.500 funcionários do BC à greve, que já dura um mês e é a mais longa da história da instituição, reduziu o volume de informações normalmente analisadas pelos diretores nos dois dias de Copom. Mas, segundo o BC, a avaliação dos indicadores não foi comprometida. Os grevistas já aceitam o reajuste de 10% oferecido pelo governo, mas querem que ele seja pago à vista no início do próximo ano. O sindicato da categoria diz que haverá hoje nova reunião com o governo e a greve pode acabar sexta-feira.

COLABORARAM: Martha Beck e Ronaldo D'Ercole