Título: Boa escola é a que estimula
Autor: KOICHIRO MATSUURA
Fonte: O Globo, 08/11/2004, Opinião, p. 7

O Brasil foi escolhido pela Unesco para sediar a quarta reunião de alto nível sobre ¿Educação para Todos¿, encontro de maior peso político da área, com o objetivo de analisar os avanços e os novos desafios da educação no mundo. Nessa oportunidade, será lançado o ¿Relatório de Acompanhamento de Educação para Todos de 2005¿, uma análise da qualidade da educação em 160 países que assumiram o compromisso de cumprir metas de melhoria da educação até 2015. O Brasil é um dos países que firmaram tais metas na Conferência de Dacar (Senegal), em 2000.

Não basta abrir vagas, mas prover boas escolas, que atinjam seus objetivos. Então, o que é qualidade? O consenso de governos, organizações internacionais e não-governamentais, famílias, professores e alunos converge para dois elementos: a melhoria dos conhecimentos e a promoção de atitudes e valores necessários à cidadania e à vida em comunidade. Espera-se que a escola forme e informe. Além disso, a qualidade deve ser julgada pelo espelho da igualdade. Se existe uma escola para pobres e outra para ricos, a qualidade está afetada, na medida em que ela faz diferença para um amplo espectro de objetivos individuais e coletivos, que vão desde o cuidado com a saúde até o aumento da renda.

O relatório de 2005 aborda experiências relevantes de vários países, com destaque para o Brasil e suas inovações, como o Fundef, o Fundescola e o Proformação. Todavia, a jornada pela frente ainda é longa. Segundo avaliações da aprendizagem em um grupo de países africanos, menos de um terço das crianças alcança as competências mínimas esperadas da 4 à 6 série do ensino fundamental. Parece que as políticas educacionais desconhecem as verdadeiras necessidades de aprendizagem dos alunos. No Brasil, o MEC tem ressaltado que mais da metade dos alunos de 4 série tem desempenho crítico ou muito crítico em leitura.

Desse modo, o Brasil avança de um lado e perde do outro: diminui o analfabetismo dos adultos, mas cria novos analfabetos funcionais na própria escola. Nessa luta, corre-se o risco de avançar mais devagar ou até andar para trás. Convivemos não só com o problema da qualidade, como da democratização educacional, já que alunos com menor sucesso pertencem às camadas menos privilegiadas da sociedade. Não só a escola é pobre em qualidade, como também se destina uma escola pobre para o pobre.

Portanto, a qualidade é um atributo fundamental da educação. Não se pode falar de uma escola que parece escola mas não é, porque não. Que pode ser verdadeira para uns, mas não para outros. Ou, nas palavras do educador e antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, uma escola que se pauta pelo pacto da mediocridade: o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende.

Daí a importância de ampliar os investimentos em educação para torná-la, de fato, uma prioridade em todos os países. Nesse sentido, louvo a iniciativa do governo brasileiro de propor a criação do Fundo de Educação Básica (Fundeb) a fim de elevar os recursos do setor e melhorar o ensino. A educação ocupa hoje posição central nas economias. É da mais alta importância aumentar os recursos e assegurar sua estabilidade mediante vinculações específicas.

O relatório de 2005 tem um profundo significado: o de encorajar a todos para cumprir os compromissos internacionais que a maior parte dos países firmou em 2000 e que envolvem uma educação de qualidade.

Não é fácil aos países pobres construir salas de aula, ampliar vagas e até equipar os estabelecimentos. Porém, isso é relativamente fácil diante do desafio da qualidade: melhorar não só a infra-estrutura, mas preparar melhor os professores e diretores e alterar a dinâmica das relações sociais na escola de modo que o aluno aprenda.

Pesquisas internacionais mostram que uma boa escola é aquela em que existe um clima favorável à aprendizagem, em que os professores e gestores são líderes animadores e em que a violência é substituída pela cultura de paz e pelo gosto de os alunos irem a uma instituição que atende às suas necessidades. Uma boa escola tem um currículo significativo: mantém um pé no seu ambiente e outro na sociedade em rede. Por mais árduo que seja o caminho, é preciso saber trilhá-lo, para não hipotecarmos o nosso futuro.