Título: Dirceu: 'Eu já estava marcado para morrer'
Autor: Maria Lima
Fonte: O Globo, 21/10/2005, O País, p. 10
Apesar de momentos de desânimo, deputado afirma que sente uma mudança de clima na Câmara a seu favor
BRASÍLIA. Contrariando a previsão feita pela maioria dos parlamentares, inclusive de companheiros petistas, o deputado José Dirceu (PT-SP) disse não considerar que a cassação de seu mandato seja tão certa. Alternando momentos de cansaço, algum desânimo e esperança, Dirceu disse acreditar que nos últimos dias houve uma mudança de comportamento do plenário em relação a seu caso.
Depois de uma passagem rápida pelo plenário vazio da Câmara, ontem, Dirceu, em conversa no cafezinho com um pequeno grupo de jornalistas, disse que está preparado para qualquer resultado. Desabafou que seu organismo começa a ficar cansado "dos150 dias de verdadeira tortura" e do bombardeio constante, mas faz questão de dizer que ainda acredita em surpresas.
O deputado petista disse que não sabe explicar o motivo de "tanta perseguição" desde que assumiu o cargo de chefe da Casa Civil do governo Lula. Disse não acreditar que tenha sido o acúmulo de poder, mas reclamou que, desde que assumiu o governo, não teve uma só semana de sossego.
- Desde que assumi o governo, passei a sofrer uma marcação cerrada. Estava marcado para morrer desde o começo. O caso Waldomiro Diniz foi a avant premiãre - desabafou Dirceu, antes de seguir para um encontro com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), em seu gabinete.
'Sei que estão preocupados'
O ex-chefe da Casa Civil insiste em afirmar que não se considera morto:
- Ou eu vou perder de muito no plenário, ou vai ser muito difícil me cassarem. Sei que estão preocupados. Pessoas do lado de lá estão vindo me contar que eles estão preocupados.
A mudança de comportamento no plenário é visível, diz Dirceu: os tapinhas nas costas estão mais freqüentes, os cumprimentos diferentes e as decisões internas que lhe favorecem podem estar encontrando eco entre os que votariam pela sua cassação.
Apesar do cansaço, Dirceu não esmorece. Ri para todos os parlamentares, inclusive os mais aguerridos da oposição, faz questão de apertar-lhes a mão, faz uma piadinha aqui, conta uma historinha ali. Ao cumprimentar Pauderney Avelino (PFL-AM), conversaram sobre a seca na Amazônia.
- Seu ministro Ciro Gomes está distribuindo patadas em todo mundo. Nem deixou um prefeito da região fazer um discurso de agradecimento ao socorro do governo - brincou Pauderney.
- Está certo (o prefeito), é obrigação - completou Dirceu.
Ao entrar no cafezinho, o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL) saudou-o com um "Meu comandante, sempre na luta?". Dirceu respondeu batendo continência:
- Com la guarda em alta, como diriam os cubanos.
Sobre a disposição de continuar procurando todos os caminhos jurídicos, ele diz que seus adversários não podem reclamar:
- Direito é uma coisa que não podem contestar.
Logo depois da votação do pedido de cassação no Conselho de Ética, Dirceu quer sair uns quatro dias para um descanso na praia, de preferência no Nordeste. Diz que sempre esteve preparado para esse tipo de adversidade, mas admite que seu organismo começa a dar sinais de cansaço:
- O que estou passando é como o choque elétrico, são 150 dias de verdadeira tortura! O organismo começa a reagir.
"Desde que assumi o governo, passei a sofrer marcação cerrada. Estava marcado para morrer desde o começo"
" Ou vou perder de muito no plenário ou vai ser muito difícil me cassarem"
"O que estou passando é como o choque elétrico, são 150 dias de verdadeira tortura!"
"Com la guarda em alta, como diriam os cubanos"
JOSÉ DIRCEU
Deputado Federal (PT-SP)
Legenda da foto: O DEPUTADO JOSÉ Dirceu aparentando bastante cansaço no plenário da Câmara: "Com la guarda em alta, como diriam os cubanos"