Título: Jacarepaguá pode se tornar um bairro-favela
Autor: Luiz Ernesto Magalhães
Fonte: O Globo, 21/10/2005, Rio, p. 18

Programa da prefeitura não consegue conter o crescimento de Rio das Pedras, que já teria 80 mil moradores

Jacarepaguá poderá se transformar em um bairro-favela em menos de 20 anos. A previsão consta de um estudo do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), feito em 2002, com base nas taxas de crescimento populacional da região. Segundo o documento, os moradores de favelas poderão ser maioria em 2024. O ritmo com que surgem novas construções irregulares impressiona. Iniciado em 1999, o Favela-Bairro não conseguiu conter a maior delas, Rio das Pedras, que já forma um complexo de nove comunidades. Oficialmente, são 43.900 moradores. Lideres comunitários asseguram que já seriam 80 mil.

A expansão de Rio das Pedras ocorre em duas frentes: por meio da verticalização e de novas invasões. Em Pinheiros, primeira área da favela urbanizada pela prefeitura e considerada a mais valorizada, há prédios com cinco andares. Já no Areal 1, Areal 2 e Areinha, novos barracos são erguidos diariamente. Muitas casas estão na faixa marginal de proteção da Lagoa de Jacarepaguá, que havia sido parcialmente liberada com o reassentamento de moradores no final de 2000. Muitos voltaram para o local em poucos meses:

- Ganhei da prefeitura uma casa no Conjunto Bandeirantes (Vargem Grande). Mas lá havia tráfico e não era um ambiente bom para criar meus filhos. Voltei para Rio das Pedras quatro meses depois de me mudar- disse Márcia Vieira de Souza, de 35 anos.

Favelização prejudica dragagem de canais

As faixas de proteção - que ocupam um mínimo de 30 metros a partir do leito de rios e lagoas - têm entre os objetivos evitar que construções aumentem a erosão e o assoreamento. Em Jacarepaguá, a Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla) não enfrenta problemas apenas com Rio das Pedras. A grande quantidade de barracos à beira de rios e lagoas faz com que o órgão enfrente dificuldades para dragar canais em toda a região.

- Calculamos que existam de 3.500 a 4 mil casas à beira de rios e canais. Recentemente, não conseguimos dragar alguns trechos do Rio Grande (Cidade de Deus) porque não havia como as máquinas chegarem - diz Wilson Júnior, gerente regional da Serla.

Em 2000, Jacarepaguá somava 77 favelas onde viviam 113.287 pessoas, quase 100% de aumento populacional em relação a 1991 quando havia 58.267 moradores. No período, o crescimento populacional no asfalto foi de apenas 6,8%, passando de 369.244 para 394.411 moradores. Muitas favelas surgiram na década de 80, em invasões patrocinadas por políticos. O avanço das áreas carentes se refletiu no mercado imobiliário:

- A Praça Seca, que já foi reduto da classe média, virou um bairro de passagem. Já a Freguesia, que não tem tantas favelas, se valorizou. O metro quadrado da Praça Seca hoje corresponde à metade do da Freguesia - disse o corretor Cristiano Amaral.

O crescimento das favelas colaborou para que o Tanque perdesse para a Taquara importância como pólo comercial. Uma das favelas da área é a Bela Vista, cujas primeiras construções são de 1989. Segundo a associação de moradores, hoje já viveriam no local cerca de dez mil pessoas. O avanço da favela pela encosta ameaça fazer com que, no futuro, ela se una a outras comunidades no lugar conhecido como Mato Alto, que fica na Rua Cândido Benício, uma das principais vias do bairro.

- Alertei várias vezes o Ibama e a prefeitura que a comunidade já invadiu áreas de preservação. Nada foi feito - disse Maria Maciel da Rocha, presidente da Associação do Morro da Bela Vista (Covanca).

Barracos são erguidos ao longo da Grajaú-Jacarepaguá

Outro ponto cujo crescimento desordenado também preocupa no bairro é a subida da Auto-Estrada Grajaú-Jacarepaguá. Nas imediações do Hospital Cardoso Fontes, há mais de 50 barracos localizados na beira da pista. A favela fica próximo da vertente oeste do Maciço da Tijuca.

Segundo um estudo do Laboratório Geo-Heco do Instituto de Geografia da UFRJ, vários fatores explicam a expansão de favelas na região nos últimos anos. Parte dos moradores é formada por pessoas que foram atraídas pela oferta de empregos na construção civil da Barra. Um outro grupo se mudou de favelas localizadas em áreas mais nobres, em especial da Zona Sul, para o bairro, onde os aluguéis de casas e barracos eram mais baratos.

O prefeito Cesar Maia disse que o reassentamento de moradores que vivem às margens das lagoas do bairro só seria possível se o governo federal autorizasse o município a contrair um empréstimo de US$100 milhões de bancos japoneses que seriam investidos em saneamento na Baixada de Jacarepaguá. Quanto à favelização do bairro, Cesar diz que a solução é a economia voltar a crescer.

Legenda da foto: JUNTO Ã PISTA da Auto-Estrada Grajaú-Jacarepaguá, perto do Hospital Cardoso Fontes, cresce uma nova favela