Título: Cearense teve a filha morta em briga de trânsito
Autor: Tatiana Farah
Fonte: O Globo, 22/10/2005, O País, p. 5

FORTALEZA. A cearense Oneide Braga é uma sobrevivente da violência. No dia 28 de dezembro de 1993, perdeu a única filha num crime que abalou Fortaleza pela brutalidade e pela pouca idade do assassino e da vítima. A bailarina Renata Braga, uma jovem alta, de sorriso amplo e longos cabelos loiros, tinha apenas 20 anos quando foi morta depois de levar um tiro no olho durante uma discussão no trânsito da qual sequer participou. O assassino, Wladimir Magalhães Porto, na época com 25 anos e estudante de direito em Brasília, passava férias na cidade. Ele tinha porte de arma.

Preso em flagrante e julgado em 1995 por um júri popular, foi condenado a sete anos de prisão, mas recorreu e um novo julgamento ainda não aconteceu. Ele está em liberdade, concluiu os estudos e, segundo a família da bailarina, já se casou.

Brigando em causa própria, Oneide Braga descobriu uma luta ainda maior. Ela se tornou uma das fundadoras da Associação dos Parentes e Amigos de Vítimas da Violência (APAVV), que existe há seis anos. Além da assistência a vítimas e parentes, a entidade defende mudanças no Código Penal e tenta levar para Fortaleza um centro de atendimento. Ao mesmo tempo, tem caráter pacífico porque combate qualquer iniciativa de vingança.

¿ Nossa luta tomou uma dimensão maior do que nossos casos particulares ¿ diz. ¿ A APAVV foi uma filha que a Renata me deixou.

Os nove integrantes da APAVV vão votar pela proibição da venda de arma de fogo no referendo de amanhã. Para aqueles que argumentam que o cidadão ficará desprotegido enquanto o bandido continuará armado, Oneide tem uma resposta:

¿ O assassino da minha filha era dito cidadão de bem que estava armado e, por uma discussão banal, irritou-se e deu um tiro que a matou.

O assassinato da bailarina causou comoção porque o motivo foi banal. Renata, que morava no Rio, foi rever a família e reencontrou Gustavo, o primeiro namorado. No último dia de sua vida, eles e um casal de amigos saíram para dançar no bar Pirata, na Praia de Iracema.

Depois, decidiram ir à Avenida Beira Mar, local de onde se tem a mais bela vista da orla marítima da capital cearense. A caminho, por volta da meia-noite, Gustavo freia o buggy que dirigia porque um Mitsubishi preto avançara o sinal vermelho. Ele desce e xinga o motorista do outro carro. Wladimir estava acompanhado de um amigo e do irmão, que também tinha uma arma com licença em dia.

Renata pede a Gustavo para que entre no carro. Eles saem em direção à Avenida Beira Mar, mas minutos depois os carros voltam a se encontrar. Wladimir atirou. A bala atingiu o olho esquerdo de Renata, que morreu no local. Wladimir foi preso em flagrante.

Oneide não consegue falar em perdão. Quer ver o assassino de sua filha pagar pelo que fez. Mas, vivendo o luto, percebeu que Renata não foi a única vítima:

¿ Eles foram vítimas também tanto quanto minha filha.

Oneide refere-se ao pai de Wladimir, que presenteou os filhos com armas pensando que os protegia da violência.