Título: Mais um passo
Autor:
Fonte: O Globo, 22/10/2005, Opinião, p. 6
Notícias de toda sorte envolvendo armas são publicadas diariamente nos jornais, com uma exceção flagrante: faltam os casos de assaltantes que tenham sido mortos, postos para correr ou de outra forma impossibilitados de seguir com sua ação criminosa por ter sua vítima feito uso de uma arma. Acrescente-se a esta ineficácia da arma de fogo como instrumento de defesa o número de mortes acidentais ou por motivo fútil em escolas, no trânsito, em brigas de torcidas de futebol, e assim por diante, e se terá toda a argumentação necessária para convencer as pessoas de bom senso de que o fim do comércio de armas, com as devidas exceções, só pode ter bons resultados.
É certo que não haverá efeito imediato e significativo sobre o nível de criminalidade. Mas não é este o objetivo da proibição que é tema do referendo de amanhã, e, mesmo aqui, ainda que só gradualmente e a longo prazo ¿ à medida que começarem a escassear as armas compradas legalmente, que são a principal fonte de suprimento dos bandidos ¿ haverá conseqüências positivas. Como deixa claro a constatação da Secretaria de Segurança do Estado do Rio, 61% das 86 mil armas apreendidas com criminosos desde 1999 pertenciam originalmente a pessoas sem antecedentes criminais.
Realmente importante, no entanto, é criar as condições para que persista a tendência de queda do número de homicídios registrados, pela primeira vez em 13 anos, em 2004, quando foram poupadas cerca de três mil vidas ¿ resultado da campanha de desarmamento, que levou à entrega de 400 mil armas. Parece muito, mas não chega a 7% dos 6 milhões de armas em posse legal da população, estando com os criminosos outros 4 milhões.
É significativo que o número de mortes tenha caído mais onde a campanha foi mais bem-sucedida. E pode cair mais, em todo o país, se, com o ¿sim¿, a população aproveitar esta oportunidade de promover uma mudança radical no quadro de guerra civil que se vive há tanto tempo no Brasil.