Título: DELÚBIO AMEAÇA DEIXAR PT PARA FUGIR DE EXPULSÃO
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 22/10/2005, O País, p. 12

Pressionado, ex-tesoureiro cogitou desfiliar-se ontem mas voltou atrás e aguardará decisão de hoje do diretório

SÃO PAULO. O diretório nacional do PT deve expulsar hoje o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares. Durante a semana ele foi pressionado por dirigentes petistas a sair do PT espontaneamente. Ontem à tarde, chegou a avisar à direção que se desfiliaria do partido, mas no início da noite voltou atrás. Caso não apresente a renúncia até o início da reunião, hoje de manhã, o relatório da comissão de ética que recomenda sua expulsão será votado.

Delúbio se convenceu que a sua expulsão seria votada mesmo que ele pedisse a desfiliação e entendeu que a saída por sua iniciativa seria inócua.

¿ O relatório está na pauta. Mesmo que haja a desfiliação voluntária caberá ao diretório decidir se vai votá-lo ou não ¿ disse o presidente nacional do PT, Tarso Genro.

Segundo dirigentes petistas, Delúbio tem uma carta de renúncia pronta desde o início da semana, mas reluta em entregá-la. Ele avalia que está sendo vítima da hipocrisia de antigos companheiros que se beneficiaram do dinheiro de caixa dois obtido pelo ex-tesoureiro e agora dizem que não sabiam de nada. Altos dirigentes do PT chegaram a anunciar ontem a saída espontânea do ex-tesoureiro, mas tiveram que voltar atrás.

¿ Ele disse queria ir ao diretório e olhar nos olhos de quem votará por sua expulsão ¿ disse uma fonte petista que conversou com Delúbio.

Punição de sete, outra polêmica

Outro ponto polêmico da reunião de hoje é a punição aos sete parlamentares petistas acusados de envolvimento com o esquema operado pelo ex-tesoureiro e pelo publicitário Marcos Valério. Até o início da noite, o deputado José Pimentel (PT-SE), chefe da comissão de sindicância criada para analisar a situação dos deputados, ainda não tinha decidido se apresentaria seu relatório.

¿ Ainda vamos decidir. A prioridade agora é a posse da nova direção ¿ desconversou Pimentel, às 20h de ontem, ao sair de um encontro do Campo Majoritário acompanhado do ex-deputado Paulo Rocha (PT-PA), que renunciou ao mandato no início da semana.

Segundo dirigentes petistas, todos os deputados envolvidos na sindicância haviam enviado as informações requeridas semana passada e Pimentel só não apresentará o relatório se não quiser. De acordo com esses dirigentes, um texto prévio já foi redigido e isenta todos os deputados de responsabilidade. O argumento é que os parlamentares sacaram dinheiro das contas do publicitário Marcos Valério por orientação de Delúbio e, portanto, não sabiam que se tratava de recursos irregulares.

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, beneficiado com o dinheiro de Marcos Valério, é um dos que disseram ontem não saber a origem dos recursos.

¿ É claro que eu não sabia. A fonte conhecida era a tesouraria do diretório nacional do PT ¿ disse João Paulo.

Ex-líder recua de acusação

Já Paulo Rocha, que recebeu R$920 mil, disse saber que o partido fazia captações de recursos irregulares para saldar dívidas de campanha.

¿ Sabíamos que o partido estava captando recursos para o pagamento de despesas não contabilizadas. A legislação nos permitia legalizar isso mais tarde ¿ disse Rocha.

À tarde ele chegou a dizer que ¿todo mundo¿ sabia da existência de despesas não contabilizadas. Depois, recuou.

¿ Não posso dizer se os outros sabiam.