Título: DISCUSSÕES APAIXONADAS DIVIDEM FAMÍLIAS
Autor: Chico Otavio
Fonte: O Globo, 23/10/2005, O País, p. 3

Campanha do referendo provocou polêmicas caseiras e deixou em lados opostos pais e filhos, maridos e mulheres

Vá lá que não chegou a ser um Fla-Flu ¿ mas o referendo provocou paixões e discussões que dividiram até quem há décadas sempre esteve do mesmo lado. E tal qual nas torcidas organizadas, nem sempre pais e filhos, maridos e mulheres, irmãos vestem camisa igual. Basta ver a história, por exemplo, do casal Maria Vitória Turra Guimarães, de 47 anos, e Anselmo Machado Guimarães, de 50. Ele tem porte e anda armado desde os 18 anos. Ela, que quase foi atingida acidentalmente pelo marido, não gosta nem de ver o revólver 38 que ele usa. Hoje, ele vai votar ¿Não¿, contra a proibição do comércio de armas. Ela é ¿Sim¿ fervorosa. Só mesmo um assunto tão polêmico para provocar essa confusão, justamente no ano em que Maria Vitória e Anselmo completam 25 anos de casados.

¿ Tenho muito medo de arma. Já tentei convencê-lo a desistir de andar armado, mas não consegui. Num assalto, acredito que temos mais chance de sobreviver se não reagirmos. E se o bandido vir a arma, pode ficar com raiva e nem pensar duas vezes antes de atirar ¿ diz Maria Vitória, que é artesã.

Como gerente de banco, Anselmo já enfrentou dois assaltos. No primeiro, tentou reagir, mas desistiu quando viu que os cinco bandidos portavam metralhadoras e pistolas e entregou seu 38. Em 55 minutos ao lado dos bandidos, Anselmo conseguiu convencer o chefe da quadrilha a não roubar sua arma.

¿ Em outra oportunidade, não deu nem para tentar reagir. Os bandidos entraram quando o banco já estava cheio ¿ conta Anselmo.

O acidente que quase matou Maria Vitória aconteceu há 17 anos. Durante um churrasco, a tia dela, que era major do Exército, chamou Anselmo para ver uma pistola nova. Achando que estava sem balas, Anselmo atirou em direção à mulher.

¿ O tiro passou ao meu lado, por pouco não morri ¿ relembra Maria Vitória.

¿ Errei porque não poderia ter confiado na palavra da tia. Mas tenho curso de tiro e cabeça fria para ter uma arma e saber quando posso reagir ou não. Quero continuar tendo o direito de defender minha família ¿ diz ele.

O casal tem duas filhas, uma de 14 e outra de 23 anos. A mais velha ainda está indecisa, mas a caçula diz que votaria ¿Não¿, apesar de também ter medo da arma do pai em casa.

Na casa da família Secunho, o racha criou duas torcidas: no time do ¿Sim¿ jogam a mãe, Lucinda, e a filha do meio, Marcella, de 24 anos. Na turma do ¿Não¿, estão o pai, Luiz Alberto, e a caçula, Júlia, de 21. O voto de minerva poderia ser do primogênito, Guilherme, de 26, mas como ele mora em São Paulo só vai justificar ¿ embora Luiz Alberto tenha percebido que o rapaz, médico como ele, também deixou transparecer uma leve tendência contra a proibição da venda de armas. A família reuniu reportagens publicadas em jornais e revistas e, em conjunto, tentou chegar a um consenso.

¿ Voto ¿Sim¿ porque sou totalmente contra as armas. Não acredito que foram feitas para proteger e sim para matar. Sem armas, será possível salvar muitas vidas ¿ diz Marcella.

¿ No hospital, a maioria dos baleados é vítima de armas ilegais. E sou contra cercearem o direito de as pessoas terem armas. Nunca tive e nem pretendo ter, mas acho que isso é uma decisão pessoal, que não teve ter interferência do governo ¿ rebate Luiz Alberto.

O debate também chegou à mesa de jantar da família do arquiteto Alcides Horácio Azevedo, de 60 anos. Ele e sua mulher, a decoradora de interiores Tânia Maria Peixoto Azevedo, de 56, estão unidos no ¿Não¿. A filha Patrícia Maria Peixoto Azevedo, de 26, no entanto, é ¿Sim¿ e tentou convencer os pais a mudarem de lado.

¿ Apesar de os argumentos deles serem bons, não me convencem. Acho importante que a sociedade legitime a iniciativa de desarmamento. E acho que a vida numa sociedade pacífica implica cercear alguns direitos, sim.

Os pais temem o crescimento do comércio paralelo de armas, caso o ¿Sim¿ vença.

¿ A venda ilegal já tinha diminuído por causa do Estatuto do Desarmamento. Por isso, o referendo é irrelevante ¿ afirma Alcides.

¿ O referendo é uma cortina de fumaça e não atinge o foco do problema ¿ diz Tânia.

Na casa da psicanalista Márcia Duba, o ¿Não¿ também é maioria. Ela é contrária à venda de armas, mas não convenceu os filhos Moira, de 20 anos, e Tiago, de 22, que pretendem votar contra a proibição.

¿ Debatemos sobre o assunto em casa, mas ninguém cedeu. Ter uma arma para defesa é um direito meu ¿ diz Tiago.

¿ O bandido vai continuar armado e o policial não vai chegar na casa das pessoas a tempo de evitar o assalto ¿ acrescenta Moira.

Já a estilista Lorena Sender até pode se orgulhar de, nos minutinhos finais, ter convencido a mãe, Norma, a trocar o ¿Não¿ pelo ¿Sim¿. Mas os irmãos Domingos e José, técnicos em informática, permaneceram fiéis ao voto contrário à proibição da venda de armas.

¿ Os dois lados têm argumentos muito fortes. Fica difícil ¿ admite Lorena.