Título: DÓLAR BAIXO AUMENTA O DEBATE SOBRE CÂMBIO
Autor: Cássia almeida
Fonte: O Globo, 25/10/2005, Economia, p. 23

Economistas defendem, de um lado, moeda livre e, do outro, política cambial flutuante com intervenções

A valorização do real frente ao dólar, que alcançou 17,38% de janeiro até ontem, tem intensificado o debate sobre a política cambial brasileira. De um lado, os exportadores reclamam, alegando perda de competividade, enquanto os preços internos caem e os importadores não querem mudanças. Luiz Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), na carta da entidade que será publicada mês que vem, fez uma série de exercícios para calcular a valorização do real sem os efeitos da inflação e concluiu:

¿ Não é possível estabelecer um câmbio (o preço pago em reais pelo dólar) de equilíbrio. Nas contas, na comparação com 1993, a valorização oscila de -32,54% até 66,95% ¿ diz o economista.

Essas contas mostram, segundo Schymura, que o ideal é manter a moeda flutuando conforme o mercado, sem qualquer interferência do Banco Central. E não adotar um preço fixo para a moeda americana, como aconteceu de 1995 a janeiro de 1999 no Brasil, o chamado câmbio fixo.

Câmbio livre, com interferência do BC

Mas essa opinião não é unânime entre os que acompanham a economia brasileira. Professor da USP, Joaquim Elói Cirne de Toledo diz que hoje é praticamente impossível se adotar o câmbio fixo novamente. Mas ele defende interferências do Banco Central:

¿ A cotação da moeda sofre influência direta da política monetária. Mantendo os juros altos, atrai-se capital externo, joga-se o dólar para baixo e, com ele, a inflação. Portanto, não é só a política cambial que conta.

E essa valorização aparece nos índices de preços ao consumidor, que vêm registrando taxas próximas de zero e até deflação (queda média de preços) nos últimos meses.

Toledo discorda da forma usada por Schymura para sustentar a tese de que não há como calcular a cotação do dólar de equilíbrio.

¿ O dólar ideal é aquele que permite um superávit nas transações correntes (entrada de dólares no país). E isso nós conseguimos. O superávit está em torno de US$15 bilhões.

Esse superávit nas contas, resultado do ajuste externo dos últimos anos, corre risco, na opinião de Paulo Nogueira Batista Júnior, economista da FGV de São Paulo. Para ele, a valorização do real está excessiva, prejudicando o desempenho das exportações e deixando o país à mercê dos choques externos:

¿ Da mesma forma que não há como estipular uma taxa de câmbio adequada, também não há para a taxa de juros. O câmbio deve permanecer flutuante sim. Mas com o monitoramento do Banco Central.

Taxa de juros alta tem mantido moeda baixa

A diferença brutal entre a taxa de juros do Brasil e do resto do mundo tem mantido o dólar baixo, diz o economista.

A flutuação da moeda nas ondas do mercado, defendida por Schymura, é criticada por Nogueira Júnior. O mercado financeiro é excessivamente volátil, diz o economista, dado a momentos de euforia seguidos de pânico generalizado:

¿ Para isso existe governo, para corrigir distorções e não deixar ao sabor do mercado.

Paulo Rabelo de Castro, da RC Consultoria, é contra. Também defende o câmbio livre. E critica o Banco Central por manter a taxa de juros alta demais, derrubando o dólar.

¿ Defendo o câmbio livre, sem qualquer interferência. Não como o governo faz hoje, que é controlar as cotações da moeda com os juros.

Outras variáveis contam na opinião de Toledo, da USP. O avanço dos preços das commodities exportadas pelo Brasil ajudou a manter o dólar baixo também. Essa manutenção poderia causar uma crise cambial futura, o que é o mesmo temor de Nogueira Júnior. Mas, o crescimento da economia chinesa próximo aos 10% afastaria esse temor, na avaliação de Toledo.

¿ Mas é melhor se proteger, sustentando as exportações ¿ diz Nogueira Júnior.