Título: Quebra de parceria na Credicard
Autor: Ronaldo D¿Ercole
Fonte: O Globo, 09/11/2004, Economia, p. 21

O Unibanco anunciou ontem a venda de sua participação na Credicard, a maior emissora de cartões de crédito do país, desfazendo uma sociedade de 33 anos com o Itaú e o Citibank. Pela venda dos 33,3% que detinha no capital da Credicard, a instituição receberá R$ 1,53 bilhão dos dois ex-sócios, que passam a ter, cada um, metade da Credicard. A redefinição da estrutura societária da administradora, recém-promovida a banco, vinha sendo discutida há mais de um ano e foi tratada pelo Unibanco como uma opção estratégica.

¿ Estamos vendendo nossa participação porque julgamos que, apesar de ser um ativo de excelente qualidade, (a Credicard) não configura mais um ativo estratégico como foi no passado ¿ disse o presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, que fez o anúncio do negócio junto com os presidentes do Itaú, Roberto Setúbal, e do Citibank, Gustavo Marin.

Nada muda na relação com clientes

Moreira Salles justificou a decisão observando que os ganhos com a Credicard, que em 2000 representavam 20% do lucro total do Unibanco, hoje respondem por apenas 6%. Em relação aos resultados da divisão de financiamento ao consumo do banco, a participação da Credicard no mesmo período caiu de 48% para 15%.

Para especialistas do sistema financeiro, a sociedade de grande concorrentes como Itaú e Unibanco ¿ respectivamente, o segundo e o quinto maiores bancos privados do país ¿ numa empresa como a Credicard tornou-se uma condição delicada, especialmente no que se refere às bases de dados de clientes da área de crédito de cada sócio.

¿ Não era uma posição muito confortável para grupos concorrentes ¿ observou um analista.

A Credicard foi criada em 1971 para administrar os cartões de crédito dos três bancos, num mercado ainda incipiente. Por muitos anos, a empresa tratou exclusivamente dos cartões do Citibank e do Itaú. Em meados dos anos 1990, à medida que o uso dos cartões crescia no país, a postura dos sócios começou a mudar.

Em 1996, o Itaú criou a ItauCard, sua divisão de cartões, cuja administração ficou a cargo da Credicard. No mesmo ano, a Credicard criou a Redecard, para cuidar exclusivamente do relacionamento com os estabelecimentos comerciais que aceitavam cartões. Pouco antes, o Unibanco havia adquirido o banco Nacional, que tinha uma estrutura própria de emissão e processamento de cartões. Mas manteve a gestão de seus cartões nas mãos da Credicard até 1999, quando passou a usar os sistemas herdados da instituição que incorporou.

Os presidentes de Itaú e Citibank asseguraram que a reorganização acionária, em princípio, não trará qualquer mudança para clientes e funcionários da Credicard.

¿ Uma vez concluída a transação, faremos um novo acordo de acionistas para integrar mais a Credicard às estratégias dos dois bancos ¿ disse Setúbal, explicando que os clientes Credicard poderão adquirir produtos e utilizar serviços bancários do Itaú e do Citibank.

Pelo acordo anunciado ontem, além de pagar R$ 768 milhões para aumentar sua participação no Credicard, o Itaú arrematou a Orbitall, empresa de processamento de operações com cartões, por R$ 281 milhões, recursos que serão divididos entre o Unibanco e o Citibank, com quem o banco dos Setúbal dividia o controle em partes iguais.

Há três anos, os sócios da Credicard fizeram novo aporte de recursos para criar a Orbitall, uma empresa de processamento de cartões. Mas diferentemente do Itaú e do Citibank, que utilizam os serviços da Orbitall, o Unibanco tem estrutura própria de processamento. Em setembro, a Orbitall tinha ativos de R$ 419,5 milhões, com lucro de R$ 33 milhões acumulado desde janeiro.

Itaú passa ao topo do setor de cartões

A compra da participação do Unibanco na Credicard deve pôr o Itaú no topo do ranking de cartões de crédito no país, com pouco mais de dez milhões de cartões. Isso equivale a cerca de 21% de participação no mercado, que é estimado em 51 milhões de unidades.

O Unibanco, com 7,5 milhões de cartões, mantém os 14,7% de participação que já tinha, mas reforça consideravelmente o caixa para investir no mercado de private label (cartões exclusivos), em que por meio de parcerias com redes de varejo como Ponto Frio, Magazine Luiza, Wal-Mart e Lojas Americanas, tem 9,5 milhões de usuários de cartões.

Os analistas têm dúvidas, contudo, quanto à longevidade da parceria entre Itaú e Citibank à frente da Credicard. Desde a semana passada, a instituição está autorizada pelo Banco Central a operar como banco.

¿ Agora precisa ver como os dois bancos vão dividir o compartilhamento da base de clientes do Credicard ¿ afirma um executivo. ¿ No sistema agora só há concorrência entre gente grande.