Título: DESEMPREGO FORA DE ÉPOCA
Autor: Mariza Louven
Fonte: O Globo, 27/10/2005, Economia, p. 25

Em setembro, quando costuma ceder, taxa subiu após 6 meses e renda parou de crescer

Depois de seis meses apresentando queda ou estabilidade, a taxa de desemprego subiu em setembro para 9,6% da População Economicamente Ativa (PEA). Isto significa que havia 2,1 milhões de pessoas desocupadas no mês nas seis principais regiões metropolitanas do país, número 0,2 ponto percentual superior ao de agosto, informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se de um resultado atípico, num período do ano em que normalmente aumenta a oferta de trabalho temporário e a taxa de desemprego costuma cair. Já o rendimento real médio do trabalhador brasileiro ficou estabilizado em R$974,90 no mês passado, após três meses de alta.

De acordo com o gerente da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, Cimar Azeredo, a geração de vagas cresceu, mas foi insuficiente para absorver toda as pessoas que procuram trabalho. Isso pode estar relacionado a uma maior cautela dos empresários, diante dos juros ainda muito altos (a taxa básica está em 19% ao ano) e da crise política.

O pico de contratações para o fim do ano, na indústria, acontece entre setembro e outubro. Mas parece ter sido adiado e deverá acontecer tardiamente este ano, diz a economista Luciana de Sá, da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

- Há um movimento dos empresários no sentido de deixar as contratações um pouco mais para a frente este ano - confirma o economista da Federação do Comércio do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ) João Carlos Gomes.

A queda dos juros leva cerca de seis meses para produzir impactos positivos sobre a economia, comenta Gomes. E como a inflação voltou a subir, os empresários podem ter decidido esperar um pouco mais para aumentar significativamente os custos com estoques ou pessoal.

Ainda assim, pela primeira vez desde que o IBGE mudou a metodologia de cálculo da PME, em março de 2002, o número de pessoas ocupadas, nas seis regiões metropolitanas pesquisadas, superou a marca dos 20 milhões, destaca Marcelo de Ávila, economista do Ipea. O contingente de ocupados chegou a 20,1 milhões. A elevação foi de 0,9% em relação a agosto, com mais 174.775 pessoas em atividade profissional. Ou seja, só 70,3% das 249.741 pessoas que entraram no mercado em setembro conseguiram ocupação. O saldo de 75 mil desocupados produziu a elevação da taxa do mês.

Rio continua com a menor taxa mas salário tem pequeno recuo

Entre as pessoas que procuravam ocupação em setembro, 20,4% estavam em busca do primeiro emprego. É o caso do universitário Raoni Alves, de 21 anos, que fez estágio remunerado até julho. Entretanto, como está no terceiro período, não conseguirá um emprego na área escolhida e acha difícil iniciar novo estágio no fim do ano.

Na esperança de ganhar algum dinheiro nas férias, ele começou a distribuir currículos em setembro, mas ainda não foi chamado. Aguarda uma entrevista numa academia de ginástica da Tijuca, onde acredita que tem mais chances.

- As lojas estão abrindo muitas vagas, mas tem muito mais gente concorrendo - afirma.

A menor taxa de desemprego regional continuou sendo a do Rio de Janeiro, estabilizada em 7,4% nos dois últimos meses. Mas, de agosto para setembro, o desemprego subiu em Recife, de 13,4% para 15%; São Paulo, de 9,4% para 9,7%; e Porto Alegre, de 7,6% para 8,4%.

Já a estabilização da renda média real do trabalhador em R$974,90, de agosto para setembro, foi resultado da queda de 1,2% na região metropolitana de São Paulo, já que o rendimento cresceu em quase todas as áreas pesquisadas. Mas no Rio recuou de R$915,81 para R$914,90.

Inclui quadro: "O mercado de trabalho" [gráficos com a evolução da taxa de desemprego e do rendimento real médio entre setembro de 2004 e setembro de 2005]