Título: MAIS DE 2 MIL EMPRESAS SUBORNARAM SADDAM
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 28/10/2005, O Mundo, p. 31
Para ganhar contratos com o Iraque, grandes companhias distorceram programa Petróleo por Comida da ONU
NOVA YORK. Cerca de 2.200 empresas de 66 países pagaram US$1,8 bilhão de suborno a Saddam Hussein para conseguirem contratos lucrativos durante os sete anos de existência do programa Petróleo por Comida, coordenado pela ONU.
Num relatório de 623 páginas divulgado ontem, a comissão independente de investigação revela que quase metade das 4.500 empresas que participaram do programa cedeu às exigências de pagamento de propina ao ditador iraquiano, contando com o silêncio cúmplice do banco encarregado de financiar as exportações para o Iraque, o BNP Paribas, e escapando do controle da ONU.
Grandes empresas também participaram de esquema
A maioria era de firmas de fachada criadas para negociar com Bagdá, mas grandes empresas como DaimlerChrysler, Siemens e Volvo participaram dos esquemas de corrupção, assim como figuras de projeção internacional - entre eles Charles Pasqua, ex-ministro da França, Jean Bernard Merimée, ex-embaixador da França na ONU, o parlamentar britânico George Galloway e o reverendo Jean-Marie Benjamin, ex-assistente da Secretaria de Estado do Vaticano.
- Em 2000, a imposição de suborno criou empresas de fachada e tradings internacionais para fazer esses pagamentos ilícitos. Isto mudou a natureza do programa e mostra que o secretariado-geral da ONU e o Conselho de Segurança falharam gravemente no monitoramento do programa - disse Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve Bank e chefe da comissão de investigação, que gastou US$35 milhões em 18 meses de trabalho e divulgou ontem o último dos cinco relatórios previstos.
O programa Petróleo por Comida, que existiu entre 1996 e 2003, tinha objetivos humanitários, mas virou um escândalo que enfraqueceu a ONU e deixou seu secretário-geral sob suspeita e como alvo de ataques constantes por parte dos EUA. A idéia original era diminuir o impacto das sanções impostas pela comunidade internacional a Saddam Hussein depois da invasão do Kuwait em 1990 e, para isso, a ONU monitoraria a troca de petróleo iraquiano por comida e medicamentos.
Sob a chancela da ONU, foram realizados negócios de US$103 bilhões: vendas de petróleo de US$64 bilhões e compras de US$39 bilhões em comida, medicamentos e outros produtos. Mas a organização internacional perdeu completamente o controle das negociações e era Saddam quem manipulava as empresas e decidia o destino dos contratos. Dava tratamento preferencial às empresas de França, China e Rússia porque esses países eram do Conselho de Segurança e ele achava que poderiam ajudar a pôr fim às sanções. Os iraquianos guardavam os recibos e o relatório mostra que a Volvo pagou por fora US$317 mil para ganhar um negócio de US$6,4 milhões, e a DaimlerChrysler usou um suborno de US$7 mil em troca de um contrato de US$70 mil.
Embora a venda de petróleo tivesse de ser monitorada e aprovada pelo Conselho de Segurança, era Saddam quem decidia sobre os contratos e escolhia os compradores: as empresas envolvidas em pagamentos ilegais eram na maior parte russas. Segundo o relatório, o contrabando de bens e petróleo passava livremente pelas fronteiras e imagina-se que o valor do óleo vendido ilegalmente chegue a US$11 bilhões.
- Estas empresas e pessoas têm de responder à Justiça - apressou-se a pedir o embaixador dos EUA na ONU, John Bolton.
Volcker disse que não encontrou indicações do envolvimento de Kofi Annan em esquemas de corrupção ou favorecimento ilícito, embora o filho do secretário-geral, Kojo, tenha recebido pagamentos secretos de uma empresa encarregada de monitorar o programa. Numa carta a Kofi Annan, Volcker defendeu a necessidade urgente de uma grande reforma na ONU para dotar a organização de controles mais confiáveis.
Para o secretário-geral da ONU, que assumiu as responsabilidades pelas falhas de gerenciamento do programa, as medidas cabíveis em relação aos funcionários acusados em relatórios anteriores já foram tomadas, mas há lições a tirar.
- Todos nós temos a aprender, é óbvio, e tomar medidas para fortalecer a organização - disse, sem querer comentar como estava se sentindo com o fim da longa investigação sobre ele e a organização sob seu comando.
Saiba mais sobre o caso
Cada vez que Paul Volcker apresenta um de seus relatórios sobre o programa de petróleo por comida, a ONU recebe mais um golpe, e sua reputação é novamente abalada. O relatório divulgado ontem foi o quinto e último.
A escândalo veio à tona em janeiro do ano passado, depois de um jornal iraquiano divulgar uma lista de cerca de 270 pessoas - inclusive funcionários da ONU, políticos e empresários - que teriam lucrado com a venda ilícita de petróleo iraquiano. Além da ONU, o Congresso americano deu início a uma investigação.
Em fevereiro, Benon Sevan, ex-chefe do programa, foi acusado de tentar concentrar a venda de petróleo iraquiano numa empresa. Ele e outro funcionário foram suspensos, mas negaram as acusações. Sevan acabaria renunciando em agosto, antes da apresentação de mais um relatório.
Num relatório apresentado em março, a reputação do secretário-geral Kofi Annan foi preservada, mas concluiu-se que seu filho Kojo recebera dinheiro como assessor da empresa suíça Cotecna, que obtivera um lucrativo contrato por meio do programa de petróleo por comida.
Em abril, um empresário do Texas, um búlgaro e um britânico foram indiciados. No mês seguinte, o Senado americano implicou o parlamentar britânico George Galloway e o ex-ministro do Interior da França Charles Pasqua. Dias depois, apresentou acusações contra vários políticos russos.
Legenda da foto: GENNADY ZYUGANOV: comunista envolvido