Título: `A sangria do presidente pode sair pela culatra¿
Autor: Toni Marques
Fonte: O Globo, 29/10/2005, O País, p. 10

Professor da Universidade de Michigan diz que Lula é forte candidato à reeleição e que oposição perdeu chance na crise

CAXAMBU, MG. Para o professor Carlos Pereira, do Departamento de Ciência Política da Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos, Lula é candidato forte à reeleição, mas terá poucas opções de alianças para disputar novamente a Presidência por causa de sua inépcia ao montar a política de alianças que degenerou no mensalão. Pereira, que pesquisou a reeleição na Câmara de Deputados, participou do último dia do 29º Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, encerrado ontem.

Parlamentares beneficiado pelas liberações de recursos orçamentários podem ajudar a reeleger o presidente?

CARLOS PEREIRA: Sem dúvida. Parto do pressuposto de que o presidente tem uma preferência. Essa preferência, a sua prioridade de macroeconomia, equilíbrio fiscal etc., só pode ser atingida se ele tiver maioria estável no Congresso. Já os legisladores não dependem disso para serem reeleitos; são reeleitos pelo benefício que conseguem para suas bases. Este é o equilíbrio que o sistema gera.

Mas não há um desgaste na relação entre Executivo e Legislativo para que ambos se ajudem no ano eleitoral?

PEREIRA: O problema que houve no PT é que ele foi monopolista, e não proporcionalista. O governo de Fernando Henrique distribuiu (recursos e poder) de forma mais proporcional ao peso que cada partido da coalizão do presidente tinha no Congresso. O governo Lula, não. Foi monopolizado pelo PT. Teve 22 dos 32 ministérios. O segundo partido com mais ministérios foi o PMDB, com dois. Cedo ou tarde, os membros da coalizão precisariam ser recompensados, daí o mensalão. Tudo é negociável em qualquer regime democrático. O governo é um balcão de negócios dos atores políticos. Eles trocam apoio por transferência de qualquer tipo de coisa. É preciso retirar a carga moralista disso.

Lula será candidato à reeleição, apesar da crise?

PEREIRA: Lula é candidato forte à reeleição. O PT teve grande custo eleitoral na crise, mas resta muita gordura a ser queimada. Ele tem carisma, há a militância disposta a lutar por ele, principalmente pelo argumento de que todo mundo faz caixa dois. Esse discurso pode atenuar segmentos de repulsa. As pesquisas de opinião, embora demonstrem um grau de responsabilização do presidente, mostram também que ele está em empate técnico no segundo turno com o principal candidato de oposição, José Serra.

Sendo reeleito, ele pode fazer ressurgir o mensalão?

PEREIRA: Não dá para esperar a conversão moral de ninguém. A discussão não é moral, é institucional. Seja qual for o governo, tem uma forte probabilidade desviante em relação às regras atuais. Elas são convidativas ao comportamento desviante. Um segundo mandato com certeza vai legitimar essa forma desviante de governar. A oposição perdeu uma boa chance. A estratégia de sangrar o presidente pode sair pela culatra.

Há espaço para um candidato que ataque PT e PSDB pelas suas supostas semelhanças?

PEREIRA: É muito cedo para qualquer cenário. Pode até surgir uma terceira via, se bem que a população aprendeu, pós-Plano Real, sobre presidentes que não estão dispostos a gastar mais do que arrecadam. A experiência da hiperinflação tornou os eleitores avessos ao risco. Garotinho não tem uma postura muito clara sobre preservar a estabilidade econômica. Não foi por acaso que Lula foi vitorioso quando fez um discurso de que o Plano Real era importante. Ele tem um conjunto de eleitores e de restrições internacionais que o constrangem a não desviar desse ponto de referência. Tanto é que esse é um dos pontos mais importantes do governo dele, a estabilidade.

Teremos populismo no último ano de governo?

PEREIRA: O risco de populismo existe se as pesquisas mostrarem queda acentuada na sua intenção de votos. O PT mostrou que é muito mais pragmático do que se pensava. Por isso eu não descartaria uma saída populista se ele estiver ameaçado de perder. Mas é fato que o PT pode fazer de tudo para se manter no poder. Lula vai usar o carisma, vai afirmar algum tipo de crescimento econômico que possa existir no ano que vem e as políticas assistencialistas.