Título: Rosa de Alabama
Autor: Míriam Leitao
Fonte: O Globo, 30/10/2005, Economia, p. 34

Todo mundo sabe a história: ela ficou sentada no ônibus e por isso entrou na lista da revista ¿Time¿ dos 20 heróis do século XX. Rosa Parks viveu mais meio século, desde aquele 1º de dezembro de 1955, para não se arrepender do seu gesto. Ela morreu dias atrás. Sobre a mulher negra de Alabama foram escritos milhares de artigos, livros, ensaios. O evento mostra que o destino é caprichoso. Era um dia qualquer, ela estava tão cansada como sempre, queria apenas ir para casa e, sem perceber, detonou uma revolução.

O motorista do ônibus avisou à sua teimosa passageira que teria de levá-la para ser presa.

¿ Vá em frente, você deve fazer isso ¿ disse Rosa, ao entrar na História.

Com olhos de hoje, as leis da segregação americana parecem ainda mais estapafúrdias: os negros tinham de entrar pela frente do ônibus, pagar ao motorista, sair do ônibus e entrar de novo pela porta de trás. Muitas vezes o veículo arrancava antes que o passageiro, já com a conta paga, pudesse entrar. Quanto mais bancos os brancos ocupassem, menos haveria para os negros. Eles não podiam ficar no corredor, em pé, perto dos brancos.

Nunca tivemos isso: a segregação explícita e legal. Muita gente acha, ainda hoje, que isso nos faz melhores, sem o feio defeito do racismo. Deve ser bom acreditar nisso. Deve ser confortável. Mas a realidade, por pior que seja, é melhor do que os escapismos. Penso assim. O nosso racismo foi sempre diferente, mas também doloroso, separador e trágico, como qualquer racismo.

Os dados e os fatos estão por aí. Basta querer ver. Uma expressão da polícia diz tudo: ¿elemento suspeito da cor padrão¿. Um verso de Marcelo Yuka é mais eloqüente: ¿Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.¿ Silvia Ramos e Leonarda Musumeci fizeram uma pesquisa quantitativa e qualitativa sobre abordagem policial e discriminação. Não há dúvida de quem é a vítima mais freqüente da violência. Uma polícia como a do Rio, que já foi comandada por negros, que tem negros entre seus integrantes, mas que discrimina igual, como determina a ordem não explícita e não escrita.

Tudo é muito complicado no Brasil. Há mais miscigenação, e mesmo assim uma desigualdade durável tem separado os definidos como brancos dos definidos como pretos ou pardos. Há um gradiente de tons entre o pardo e o preto, mas os dois têm indicadores semelhantes, e muito piores do que os dos brancos. Nenhuma lei determinou quem mora em que bairro, mas brancos e negros estão separados na geografia das cidades. Ninguém proíbe que negros freqüentem restaurantes finos ou lojas elegantes, mas a clientela nem se dá conta da anomalia que é ser assim tão monocromática num país multirracial.

O pensamento convencional no Brasil diz que os negros moram distantes dos brancos e não freqüentam os mesmos lugares não por serem negros, mas por serem pobres. Mas a pobreza dos negros é mais difícil de romper. Quem rompe é constrangido em ambientes aos quais, supostamente, não pertence. O IBGE mediu: um ano a mais de estudo para o negro representa metade do ganho de renda que um ano a mais para o branco. Em igual categoria ocupacional, os salários são desiguais.

¿ Do que os brasileiros estão falando quando dizem que não há racismo aqui e sim preconceito social? Sinto uma discriminação racial tão palpável desde que cheguei ¿ disse-me um jovem nova-iorquino, negro, inteligente, culto, que veio ao Brasil passar alguns meses e aprender português. Volta triste aos Estados Unidos, sem vontade de aprofundar seus estudos brasileiros.

As crianças negras têm um índice de mortalidade infantil 50% maior do que as crianças brancas. A expectativa de vida dos negros é a mesma que os brancos tinham há dez anos. No Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, 60 pontos no ranking nos separam uns dos outros. O pensamento convencional dirá: os negros vivem menos, morrem mais, têm piores empregos não por serem negros, mas por serem pobres. Por mais eloqüentes que sejam os dados, eles repetirão a mesma resposta. E esperarão que uma solução caia do céu. ¿Não há milagres nem remédio caseiro no horizonte do combate ao racismo¿, diz Jurema Werneck no relatório do Observatório da Cidadania, do Ibase, que será divulgado esta semana. Ela acha que o remédio é o que funcionou em outros países: políticas públicas para corrigir as distorções.

Os Estados Unidos não negam. Rosa Parks recebeu ordem de se levantar do banco do ônibus por ser negra. Rosa Parks não se levantou. Por 381 dias os negros de Montgomery não entraram nos ônibus. O mais longo boicote da História. Impasse. A campanha dos direitos civis varreu o país. Martin Luther King foi morto. As políticas públicas de inclusão dos negros se espalharam desde os anos 60 e o resultado é conhecido. Eles estão lá na classe média e na elite. Dá para ver até no governo Bush. O racismo permanece, mas a construção da igualdade de oportunidades avançou muito em quatro décadas.

Por seu próprio esforço, depois de engolir muito desaforo, com histórias emocionantes de persistência, sem ajuda do Estado e das empresas, alguns negros brasileiros desembarcaram na classe média. São muitos os brasileiros, de qualquer cor, que hoje desafiam o pensamento convencional e se perguntam: por que o Brasil é assim? Os estudos sobre o tema se adensam, o movimento negro se conecta em rede com os de outros países, as coalizões se formam. Nossas rosas estão chegando. Nada temos a perder, a não ser essa distância que nos envergonha e enfraquece.