Título: DALAI LAMA, UM FANTASMA NOS LIVROS
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 30/10/2005, O Mundo, p. 52

Governo chinês censura qualquer menção ao último líder do Tibete

PEQUIM. A conturbada relação da China com as manifestações religiosas criou um país de situações bizarras. Seguindo a mais pura tradição de lavagem histórica promovida por regimes autoritários, o governo de Pequim transformou o 14º Dalai Lama num fantasma, ausente dos livros sobre budismo e livros escolares.

¿Budismo na China¿, escrito pelo pesquisador Ling Haichenge, considerado o livro oficial da China sobre a religião, consegue a proeza de falar sobre o budismo contemporâneo sem mencionar uma vez sequer o Dalai Lama, nem que seja para falar mal.

Nos dois principais templos do Tibete ¿ o Palácio Potala, antiga residência do Dalai em Lhasa, ou o mosteiro de Tashilhunpo, em Xigaze ¿ apenas as fotos do 10º e do 11º Panchen Lama são exibidas nos altares ao lado das estátuas de Buda.

Num país onde o partido no poder, o Partido Comunista da China, exige a negação de qualquer crença religiosa para que uma filiação seja aceita, as aparições do Panchen Lama são invariavelmente seguidas de recomendações para que os budistas ¿preservem o amor pela pátria-mãe¿. Reunir-se em cerimônias religiosas é permitido no país, desde que as cerimônias sejam comunicadas ao governo previamente.

Instituição denuncia prisão de monge budista

Apesar das alegações de que há liberdade religiosa, a ONG Human Rights Watch denunciou, no último dia 17, a prisão do monge budista Sonam em pleno Palácio Potala, por discordar de suas opiniões políticas.

¿ Na China, o governo de Pequim permite que todo mundo tenha a religião que quiser, desde que ela não represente uma ameaça ao próprio governo. Enquanto isso, eles prendem monges budistas, padres católicos e seguidores da Falun Gong. É uma ditadura brutal que parece não comover os países com os quais a China faz negócios ¿ diz Joseph Kung, presidente da Fundação Kung, baseada em Nova York, que apóia a igreja clandestina católica chinesa.

O governo da China nega oficialmente que haja repressão a manifestações religiosas no país, mas não dá entrevistas sobre o assunto. (G.S.)

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