Título: A LUTA POR FIÉIS BUDISTAS NO IMPÉRIO DO MEIO
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 30/10/2005, O Mundo, p. 52

Instituto de Pequim diploma monges sob as bênçãos do 11º Panchen Lama, visto pelo Dalai como fantoche da China

PEQUIM. Uma das notícias mais destacadas na imprensa estatal chinesa esta semana foi a cerimônia de diplomação de 11 monges pelo Instituto de Estudos do Budismo em Pequim. Depois de um ano de curso, a turma de lamas foi a primeira a receber o grau de formação em Estudos Avançados de Budismo na China. E como não poderia deixar de ser em momentos especiais para o budismo tibetano, a cerimônia foi abençoada diretamente de Xigaze, no Tibete, por um rapaz de 15 anos, nascido Gyaencaen Norbu, mas conhecido em toda a China como o 11º Panchen Lama Bainqen Erdini Qoigyjiabu, um deus vivo.

Uma figura controversa, mas constante na mídia da China. Para o governo, o rapaz é um líder espiritual budista legítimo. Para o governo do Dalai Lama no exílio de Dharamsala, na Índia, um fantoche do comunismo na tentativa de anular o Dalai. Na mídia estatal chinesa, o Panchen Lama é tratado como a mais alta autoridade religiosa. No território censurado mas escorregadio da internet, é um impostor ligado à busca de legitimidade que a China procura dar à anexação do Tibete, feita em 1951.

Décimo Panchen é preso político

O que quer que se fale sobre Gyaencaen Norbu, o fato é que o rapaz representa hoje todas as contradições sobre a liberdade religiosa e o direito individual na China moderna, num mundo em que todos já ouviram falar no Dalai Lama (que significa oceano de sabedoria), mas poucos sabem quem é o Panchen Lama (que poderia ser traduzido como grande mestre).

O Panchen Lama é o segundo mais alto líder espiritual do Tibete desde a época em que a região se dividia entre Tibete Anterior (com capital em Lhasa e área de influência religiosa do Dalai) e Tibete Posterior (com capital em Xigaze, área de influência do Panchen). Os dois líderes se reconhecem desde o século XVII pelo menos, segundo o Departamento de Informação e Relações Internacionais do Governo do Tibete no Exílio, e uma figura é fundamental no processo de escolha e reconhecimento da outra como a reencarnação do Buda.

Em 1959, quando o 14º Dalai Lama fugiu para o exílio na Índia após rebelião no Tibete, o 10º Panchen Lama foi escolhido pelos comunistas como representante espiritual dos tibetanos na esperança de que defendesse a legitimidade do novo governo. As posições contrárias do Panchen ao centralismo e autoritarismo de Pequim resultaram em sua prisão durante a maioria dos anos em que permaneceu na China, até morrer de ataque cardíaco em 1989, aos 51 anos.

Seguindo a tradição budista, o Dalai Lama iniciou as buscas pelo jovem que seria a reencarnação do Panchen e, em maio de 95, o garoto Gedhum Choekyi Nyima foi escolhido. Mas o governo da China não podia aceitar a indicação de um exilado político, considerado um desestabilizador da ordem no país.

¿ Dalai compactuou com o regime feudal que existia no Tibete e só foi banido com a ajuda da China. Pretende desestabilizar o governo chinês, que sempre teve o Tibete como parte do seu território ¿ diz Ren Jianxi, diretor do Instituto de Pesquisa de Tibetologia de Sichuan.

¿ Dalai precisa abdicar das pretensões separatistas se quiser ajudar o Tibete e não intervir em assuntos internos da China, como a indicação do Panchen ¿ faz coro Zhi Kong Qiong Cang, vice-presidente da Sociedade de Budismo Tibetano em Lhasa.

Para surpresa do governo do Dalai na Índia, Gedhum Nyima e sua família desapareceram numa visita a Pequim em 95. Ele é considerado hoje, aos 16 anos, o prisioneiro político mais jovem do mundo. Pequim nunca assumiu a responsabilidade pelo sumiço, ainda que tenha dado inúmeras explicações sobre o desaparecimento. No mesmo ano, as autoridades budistas ligadas ao governo chinês indicavam Gyaencaen Norbu o 11º Panchen Lama.

Desde então, as aparições públicas do 11º Panchen Lama seguem um ritual típico dos líderes comunistas na China, com muita banda de música. Um poderoso esquema de segurança o cerca a cada aparição. No mosteiro Tashilhunpo, em Xigaze, seu dia-a-dia de estudos e meditação ¿ cumprido, até o ano passado, em Pequim ¿ é exibido com freqüência na TV e em jornais. Pela mídia, sabe-se que o Panchen passa parte do tempo estudando as escrituras sagradas, navegando na internet em seu laptop e até aprendendo inglês.

¿Toda a manhã, Sua Santidade toma chá de manteiga com zanba¿, diz à imprensa local Lobsang Dainta, espécie de tutor do rapaz. Vira e mexe, o Panchen aparece em matérias pedindo a todos os budistas do país que ¿preservem os interesses da pátria-mãe¿.

¿A escolha de um Panchen Lama que não o abençoado pelo Dalai mostra a falta de liberdade religiosa no Tibete¿, diz Tempa Tsering, secretário do governo do Tibete no exílio. ¿Se houvesse liberdade, então a China teria que respeitar o povo tibetano no apoio ao Panchen Lama indicado por Sua Santidade o Dalai Lama, no qual as pessoas depositam sua fé¿.