Título: SEM RESPOSTA
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Fonte: O Globo, 31/10/2005, Opinião, p. 6

Como um partidário do ¿Sim¿, afirmo que a acachapante vitória do ¿Não¿ no referendo não pode ser relativizada. Quase dois terços dos eleitores brasileiros votaram contra a proibição do comércio de armas de fogo e munição. E olha que alguns empedernidos representantes do ¿Sim¿ ainda tentaram apresentar a derrota como uma vitória, já que, ¿apesar de tudo (?), 33 milhões votaram pelo desarmamento¿.

Ora, a falácia deste argumento é evidente, pois desconsidera os quase 59 milhões que, contundentemente, votaram ¿Não¿. Não resta dúvida que este resultado revela uma profunda condenação da opinião pública à manifesta ineficácia das políticas governamentais de segurança pública, incapazes de deter a escalada da violência e do crime organizado.

O voto contra a proibição do comércio de armas de fogo não foi o voto dos bandidos, dos justiceiros, dos jagunços, dos matadores de aluguel, mas o das pessoas pacatas, do cidadão de bem assustado, por um lado, com a audácia dos criminosos e, por outro, impotente diante da incapacidade governamental.

Numa democracia parlamentarista talvez já estivéssemos discutindo a formação de um novo governo tal a contundência do repúdio à política de segurança pública dos governos federal e estaduais. Mas, no ¿país-do-faz-de-conta¿ ninguém foi derrotado. Os políticos, que, como legítimos aprendizes de feiticeiro, convocaram o povo para decidir uma questão lateral, foram os grandes ausentes do debate. Ninguém sabe, ninguém viu. Segue a vida como se nada tivesse acontecido. Ninguém há de responder ao clamor popular, nenhuma medida há de ser tomada, uma declaração sequer.

O recado das urnas foi claro: segurança já! Infelizmente, não haverá ninguém do outro lado para responder: ¿entendido!¿

GERALDO TADEU MONTEIRO é diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS).