Título: Desafio ao Estado
Autor:
Fonte: O Globo, 31/10/2005, Opinião, p. 6
Orotundo ¿não¿ dado por dois terços do eleitorado ao artigo do Estatuto do Desarmamento que fechava o comércio de armas tem alimentado discussões acirradas em torno do significado político dessa tão esmagadora maioria.
Se considerarmos que não existem 60 milhões de brasileiros dispostos a se armar para empreender uma ilusória e inaceitável caçada por conta própria à bandidagem, está claro que a mensagem passada pelo eleitorado extrapola a simples questão de ter ou não uma arma. Mesmo porque, sem dúvida, em sua maioria as pessoas não se dispõem a se tornar justiceiros como nos filmes de aventura urbana.
Entre todas as interpretações dadas ao resultado do referendo do dia 23, a mais razoável e abrangente parece ser a do grito de alerta ao Estado pelo descaso com que a segurança pública tem sido tratada há muito tempo.
O Brasil se destaca hoje de forma bastante negativa como um dos líderes no ranking mundial dos homicídios por arma de fogo. Com mais de 20 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes, o país disputa com África do Sul, Venezuela e Colômbia um campeonato macabro da violência. O cenário é ainda mais trágico quando se levantam as estatísticas das mortes de jovens. Entre eles, o número de homicídios chega a ser quatro a cinco vezes maior que a média das mortes na população como um todo.
Como esse drama social se agravou ¿ os homicídios quase triplicaram em duas décadas ¿ pode-se concluir que o referendo serviu para destravar esse grito preso na garganta coletiva da população.
A dúvida é se o poder público, em todas as instâncias ¿ estados, municípios, União, Justiça, Poder Legislativo e Ministério Público ¿ saberá metabolizar o recado do referendo e conseguir agir na prática para formular e executar o que todos querem: programas eficientes de segurança, dentro de uma política integrada e compartilhada por todos os níveis da administração pública.