Título: Rocinha já tem novo chefe
Autor: Taís Mendes
Fonte: O Globo, 31/10/2005, Rio, p. 8

Cunhado de Bem-Te-Vi assume lugar de traficante morto em operação bem planejada

ARocinha já tem um novo chefe do tráfico. O sucessor natural de Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi, Orlando José Rodrigues, o Soul, cunhado do traficante morto anteontem, assumiu o comando das bocas-de-fumo e, segundo a polícia, já teria reunido seu bando. O encontro teria acontecido no sábado, logo após o enterro de Bem-Te-Vi.

Soul, descrito pela polícia como um bandido mais discreto e inteligente que Bem-Te-Vi, já controlava a venda de drogas nas localidades de Vila Verde e Laboriaux. Ele era braço-direito do traficante Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, morto pela PM em abril do ano passado. Segundo a polícia, Soul também comanda o tráfico em parte do Vidigal. Por essa razão, policiais descartam a possibilidade de uma invasão da Rocinha, embora admitam o risco de uma guerra no Vidigal.

O inquérito da 25ª DP (Triagem) sobre o tráfico na Rocinha incrimina oito a 12 pessoas. Segundo o delegado Luís Antonio Ferreira, a prioridade é a prisão de três.

Ex-morador ajudou a alugar imóvel

A operação realizada pela polícia na Rocinha no fim da tarde de sexta-feira não foi a única para infiltrar policiais na favela com o objetivo de preparar o cerco final a Bem-Te-Vi. Há três meses, cinco investigadores da 25ª DP passaram a vasculhar o morro para mapear os passos do bandido, de seus seguranças e as rotas para uma possível fuga. As operações resultaram num levantamento detalhado sobre a quadrilha, com fotos e mapas da Rua do Valão, onde foi travado o tiroteio que levou à morte de Bem-Te-Vi.

Após o reconhecimento da área, os policiais montaram uma operação que não deu certo. Surgiu então a idéia de alugar um imóvel para infiltrar agentes na favela. O pequeno apartamento, um conjugado, foi alugado por um amigo de um dos policiais, ex-morador da favela, que localizou o imóvel em frente ao bar onde Bem-Te-Vi costumava parar nas madrugadas dos fins de semana. Segundo o chefe de Operações da 25ª DP, inspetor Hélio Machado, graças a essa ajuda foi possível fazer um diário dos movimentos do traficante:

¿ Isso nos ajudou muito. E o levantamento fotográfico foi fundamental para mostrar a rotina do bando.

O apartamento, no entanto, só foi ocupado na noite de sexta-feira.

¿ Era um risco muito grande plantar os dez policiais de uma só vez. Primeiro, passamos uma semana levando aos poucos comida e água para abastecer a equipe no apartamento ¿ contou o delegado Luís Ferreira.

Caso não desse certo a operação programada para a madrugada de sábado, os policiais ficariam no máximo até hoje no conjugado:

¿ Eles deveriam, então, tentar na madrugada de domingo e segunda (hoje). Não dando certo em nenhum dos dias, montaríamos outra operação para retirá-los do apartamento sem deixar que os traficantes descobrissem o local ¿ disse o delegado.

Segundo o inspetor Hélio, o traficante surgiu no local esperado ¿ na porta de um bar na Rua do Valão ¿ 30 minutos após a retirada dos 200 policiais civis mobilizados para infiltrar os dez investigadores, o que surpreendeu a equipe que participava da Operação Tróia:

¿ Esperávamos que ele aparecesse mais tarde. Tanto que só percebemos a presença dele porque uma moradora do prédio ao lado do nosso assobiou como um bem-te-vi.

Com a rua lotada, segundo Hélio, seria um risco tentar prender o bandido naquele momento. O traficante retornou à 1h40m, mas havia quatro crianças entre os policiais e o marginal. Às 2h30m, surgiu a oportunidade que o grupo esperava: Bem-Te-Vi estava exatamente no ponto previsto, em frente ao bar, e a Rua do Valão, vazia de pessoas inocentes:

¿ Utilizamos todas as aberturas do apartamento para fazer os disparos. Um grupo deixou o apartamento quando o Bem-Te-Vi caiu. Seguranças do traficante tentaram resgatar o corpo, mas cercamos o bar e as vielas ¿ disse o inspetor.

Nesse momento, o delegado chegou com o reforço de 30 policiais e um carro blindado, o Pacificador.

¿ Foram 40 minutos de troca de tiros ¿ disse o inspetor. ¿ Quando deixamos a rua, eram cinco becos com traficantes atirando contra nós. Tanto que o Pacificador nem pôde seguir pelo túnel (Zuzu Angel). Tivemos que pegar a Linha Amarela para chegar ao Hospital Souza Aguiar.

O chefe de Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, disse que o objetivo da operação era prender o traficante:

¿ A missão era prendê-lo, mas, havendo confronto, a prioridade era atingir o chefe para desarticular o restante da quadrilha ¿ disse Lins.

Os policiais que ficaram no conjugado estavam com fuzis e quatro mil balas, mas a maioria não precisou ser disparada (o número ainda será levantado). A polícia usou ainda granadas de luz e som e de efeito moral.

Segundo Lins, a operação permitiu à polícia retirar barreiras instaladas pelos traficantes na Rua do Valão, como um caminhão e uma Kombi.

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