Título: O primeiro absolvido
Autor: Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 02/11/2005, O País, p. 3

Conselho de Ética aprova por unanimidade relatório que inocenta Mabel, líder do PL

OConselho de Ética aprovou ontem por unanimidade ¿ 14 votos a 0 ¿ o arquivamento do processo por quebra de decoro parlamentar contra o líder do PL, Sandro Mabel (GO). Ele foi apontado pelo ex-deputado Roberto Jefferson como um dos operadores do esquema do mensalão e acusado pela deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) de ter lhe oferecido propina de R$1 milhão, mais R$30 mil por mês, para a parlamentar trocar seu partido pelo PL. O relatório pela absolvição precisa ser aprovado no plenário da Câmara, em votação secreta. O relator Benedito de Lira (PP-AL) disse que não há prova contundente da ¿suposta proposta indecorosa¿ feita à deputada Raquel Teixeira. Ao ler seu relatório, perguntou: ¿ É suficiente o depoimento da deputada para condenar Sandro Mabel a sanções disciplinares? Todo cidadão que tem contra si assacada uma acusação só pode ser condenado ao fim de um processo que resulte em provas cabais de sua má conduta. No fim da sessão, Mabel chorou e disse que passou por um ¿verdadeiro martírio¿ nos últimos meses, desde que estourou o escândalo do mensalão. Disse que poderá voltar a andar de cabeça erguida e afirmou que o envolvimento de seu nome no escândalo abortou sua pretensão de se candidatar ao governo de Goiás em 2006. ¿ Foram 150 dias de aflição. Não desejo isso para ninguém. O que aconteceu comigo foi um linchamento. Este processo arrebenta com as pessoas. Agora vou voltar a andar com dignidade ¿ disse Mabel após a sessão do Conselho.

¿O caso do Mabel acabou em rosca¿

O deputado Edmar Moreira (PFL-MG), que votou a favor de Mabel, não resistiu e, explorando o fato de o deputado goiano ser dono de uma fábrica de biscoitos, fez uma brincadeira: ¿ O caso do Mabel não acabou em pizza, mas em rosca. É isso. Cada um faz o que quer com a sua farinha. Benedito de Lira afirmou que não ficou comprovado ¿o hipotético aliciamento dirigido à deputada¿ tucana. Alguns conselheiros disseram que Raquel acusou sem provas e pode vir a responder pelas suas denúncias contra Mabel, que não se comprovaram. ¿ Se aqui fosse um tribunal, a deputada incorreria no delito da acusação caluniosa por ter feito uma denúncia irresponsável e leviana ¿ disse Cézar Schirmer (PMDB-RS). Até os dois deputados do PSDB que integram o Conselho votaram a favor do relatório, mas com ressalvas. Carlos Sampaio e Mendes Thame, de São Paulo, defenderam Raquel Teixeira. Eles disseram que o arquivamento do processo não significa que a oferta de Mabel a Raquel não tenha ocorrido. ¿ O arquivamento não decorre de insuficiência de prova. O que faltou foi prova robusta. Essa decisão do Conselho não desmerece em nada a biografia e a história da deputada Raquel Teixeira ¿ disse Sampaio. O relator afirmou que as declarações do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), em defesa de Mabel foram fundamentais para arquivar o processo. Perillo enviou uma gravação ao Conselho dizendo que Mabel tem condições de ser deputado, senador e até governador do estado. O próximo a ser julgado pelo Conselho de Ética é Romeu Queiroz (PTB-MG), em sessão amanhã. O relator Josias Quintal (PSB-RJ) pediu a cassação do mandato do parlamentar, acusado de receber recursos de caixa dois de campanha, dinheiro repassado pelo empresário Marcos Valério. Votaram a favor de Mabel Benedito de Lira (PP-AL), Carlos Sampaio (PSDB-SP), Chico Alencar (PSOL-RJ), Josias Quintal (PSB-RJ), Ângela Guadagnin (PT-SP), Edmar Moreira (PFL-MG), Nelson Trad (PMDB-MS), Moroni Torgan (PFL-CE), Jairo Carneiro (PFL-BA), Mendes Thame (PSDB-SP), Cezar Schirmer (PMDB-RS), Júlio Delgado (PSB-MG), Pedro Canedo (PP-GO) e Anselmo (PT-RO).