Título: CHIRAC COBRA CUMPRIMENTO DA LEI
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Fonte: O Globo, 03/11/2005, O Mundo/ Ciencia e Vida, p. 24

Periferia de Paris tem sexta noite de violência e presidente pede calma

PARIS. Depois da sexta noite de violentos distúrbios em bairros da periferia da capital francesa, o presidente Jacques Chirac rompeu ontem o silêncio sobre a crise para afirmar que ¿não podem existir áreas sem lei na República¿. Chirac pediu calma, bem como a aplicação firme da lei, mas também ¿um espírito de diálogo e respeito¿.

¿ A ausência de diálogo e a escalada da falta de respeito levarão a uma situação perigosa ¿ disse Jean-François Copé, porta-voz de Chirac, reproduzindo palavras do presidente durante uma reunião de seu conselho de ministros.

Segundo Copé, Chirac pediu aos ministros que em menos de um mês apresentem propostas para tornar mais eficaz a igualdade de oportunidades no país.

Criticado, Sarkozy reage a declarações de ministro

As declarações de Chirac foram consideradas também um pedido aos integrantes de seu governo para que, ao menos em público, deixem de lado as disputas diante da explosão de violência. No centro das divergências está o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, líder da aliança conservadora governante e candidato à Presidência nas eleições de 2007.

Sarkozy foi acusado de pôr lenha na fogueira ao chamar de escória os jovens que têm causado os distúrbios em bairros pobres, cheios de imigrantes, desempregados e delinqüentes, e ao prometer limpar essas áreas ¿com uma mangueira de pressão¿. O ministro de Promoção da Igualdade de Oportunidades, Azouz Begag, sociólogo de origem argelina, criticou a ¿semântica guerreira¿ do ministro e disse que ele precisa medir as palavras.

Em reação, Sarkozy disse ontem que, com suas palavras, Begag não estava facilitando seu trabalho. Em entrevista ao ¿Le Parisien¿, afirmou: ¿Eu digo palavras verdadeiras. Quando alguém atira num policial, não é apenas um jovem, mas um marginal, e ponto final.¿

A onda de distúrbios teve início quinta-feira passada, após a morte acidental de dois adolescentes de origem africana. Achando que eram perseguidos pela polícia ¿ que nega ¿ ele se esconderam dentro de um transformador elétrico e foram eletrocutados.

A violência atinge pelo menos nove bairros da periferia. Jovens têm enfrentado policiais nas ruas, já incendiaram dezenas de carros, atacaram lojas a pedradas e lançaram uma granada contra uma mesquita.

Na madrugada de ontem, a polícia disparou balas de borracha contra jovens em Aulnay-sous-Bois, um dos bairros mais afetados pelos distúrbios, onde 15 carros foram incendiados. Jovens lançaram bombas incendiárias contra um prédio público e pedras contra um quartel de bombeiros.

No total, 69 carros foram incendiados ontem e 34 pessoas foram presas. A polícia disse que os distúrbios continuam se espalhando por áreas antes tranqüilas em subúrbios pobres de Paris, onde vivem muitos imigrantes africanos.