Título: O primeiro ovo
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 04/11/2005, O País, p. 2
A CPI dos Correios não matou toda a charada da origem dos recursos do valerioduto mas deu ontem uma primeira resposta às cobranças que vem sofrendo nesse sentido. Os R$10 milhões aparentemente desviados do Banco do Brasil/Visanet para a agência DNA representam apenas um quinto da dinheirama, mas em algo a CPI acertou. O sempre falante Marcos Valério ontem silenciou.
Mas a palavra está mesmo é com o Banco do Brasil, que tem muitas explicações a dar sobre seus negócios com a agência de Valério. Também nesse caso o principal responsável é um morto, um morto político e funcional, o já aposentado Henrique Pizzzolato, à época diretor de marketing do banco. Está aposentado mas não indultado pelo que fez no cargo.
A primeira resposta do banco já mostra uma lerdeza inaceitável por parte de instituição tão competente: a de que só agora, no dia 25 de outubro passado, abriu uma sindicância para apurar o repasse de R$9 milhões à DNA que não teriam tido contrapartida em serviços publicitários. Pizzolato autorizou adiantamentos para lá de esquisitos, com a desculpa de que permitiriam a compra antecipada de espaços publicitários a preços mais em conta.
O achado relevante da CPI, segundo a narrativa do relator Osmar Serraglio, é o de que um destes adiantamentos (R$35 milhões) virou aplicação financeira; R$10 milhões (valor que se aproxima dos R$9 milhões apontados pelo próprio banco) foram depois transferidos para o BMG que a seguir emprestou o mesmo valor à Tolentino & Associados, que tem Valério como sócio. O próprio Valério, em seus depoimentos, informou que tal empréstimo foi destinado ao PT, e que foi feito para cobrir um anterior, feito em nome do partido. Por exigência do banco, com outra titularidade e seu aval pessoal.
Dinheiro não tem carimbo. O relator faz apenas uma ilação mas plena de sentido quando associa a aplicação no BMG e o empréstimo. O que a CPI não conseguiu demonstrar foi a relação entre um outro pagamento à DNA e um empréstimo de R$19 milhões feito pelo Banco Rural. Se chegar lá, estará próxima do fechamento das contas. A versão dos empréstimos apresentada por Valério e Delúbio terá ruído completamente e estará demonstrado que houve sim transferência de recursos públicos para o valerioduto, de onde saíram para financiar campanhas, ajudar partidos aliados e através desses aliciar deputados da base governista.
Com as baterias recarregadas, a oposição poderá recrudescer, retomando a proposta do impeachment, ou marchar para 2006 exibindo como troféu as provas de que o PT montou um esquema de corrupção e desvio de dinheiro público para o financiamento de seu projeto de poder.
Desde que foi instalada, essa é a maior vitória da CPI nas investigações. E este deve ser o seu caminho. Seguir o dinheiro, mostrar de onde veio e para quem mais ele foi. Pois tudo indica que ainda falta identificar muitos outros beneficiários.
Cúpula, Lula e Bush
Esperando Bush, Brasília amanheceu pichada mas hoje o tempo vai fechar é em Mar del Plata, onde começa a Cúpula das Américas, com a presença de 34 chefes de Estado e 50 organizações sociais globofóbicas e antiliberais.
Dificilmente a Cúpula chegará a um acordo para a retomada das negociações da Alca, o que deve levar os Estados Unidos a buscar novas referências liberalizantes na reunião ministerial da OMC, entre 13 e 18 de dezembro, em Hong Kong. As organizações sociais vão testar o aparelho repressivo chinês.
Em suas conversações bilaterais com Bush, apesar dos elogios recebidos, o presidente Lula terá que enfrentar um assunto com firmeza: o suposto plano americano de instalar uma base militar em nossas barbas, no Paraguai. Já montaram uma no Equador.
Segurança: a autonomia da perícia
A crise de segurança no Rio está aí, mostrando suas muitas caras. Quando não é possível evitar os crimes, investigá-los e punir os criminosos é o mínimo que o Estado deve ao cidadão. Mas o que temos é a impunidade que realimenta a violência. A autonomia da perícia técnica é defendida por especialistas no assunto e pelo próprio Plano Nacional de Segurança como medida essencial para o aumento da eficiência policial e judiciária. Já foi experimentada com sucesso em 14 estados brasileiros. Garante mais investimentos à perícia Ö- que no Rio fica em último lugar na lista de prioridades da Polícia Civil - e livra os peritos de pressões para impedir o esclarecimento de crimes cometidos por policiais.
Registramos estes dias ações do deputado estadual Carlos Minc e de associações profissionais em defesa dessa medida. O deputado estadual Alessandro Molon (PT) envia-nos também cópia de sua proposta de emenda à Constituição do Estado, apresentada em 2003, pela qual os institutos Médico-Legal (IML) e de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) passariam a gozar de autonomia funcional e administrativa, deixando de ser subordinados à Polícia Civil. Segundo ele a proposta é apoiada por procuradores, magistrados e promotores mas enfrenta resistência de deputados ligados à polícia. Como sempre, o lobby do atraso leva a melhor.
ALÉM DE GRAMPOS, há terrorismo no ar. Fala-se numa nova lista do lobista Nilton Monteiro. Conteria nomes de políticos (tucanos e pefelistas, sobretudo) beneficiados em 2002 por um esquema montado em Furnas. Quem viu a lista, não periciável porque em forma de xerox, diz que é picaretagem das grossas, a começar pela incongruência política entre os beneficiados.
NÃO APENAS Marcos Valério fechou o bico ontem. O site do PT não disse uma palavra sobre a última descoberta da CPI dos Correios.