Título: MAIS DINHEIRO NO PARAÍSO
Autor: Patrícia Duarte
Fonte: O Globo, 04/11/2005, Economia, p. 21

Brasileiros investiram US$ 93 bi no exterior, grande parte em países com baixa tributação

Os brasileiros estão investindo mais no exterior e preferem usar, como porta de entrada, os paraísos fiscais. Levantamento do Banco Central mostra que, em 2004, havia US$93,243 bilhões de capital nacional fora do país, quase 13% a mais do que a cifra vista no ano anterior, o que indica, sobretudo, maior interesse das empresas em expandir suas atividades para outros mercados. Grande parte desse estoque de ativos, indicou ainda a pesquisa, está em paraísos fiscais, que, apesar de estigmatizados por envolvimentos em escândalos de desvio e lavagem de dinheiro, são pontos de partida legais e considerados até mesmo usuais para as companhias que decidem investir no exterior.

- Esse resultado vem da maior inserção de investimentos no exterior e também do maior conhecimento sobre a declaração (de capitais) - explicou o chefe do Departamento de Combate a Ilícitos Financeiros e Supervisão de Câmbio e Capitais Internacionais do BC, Ricardo Liao, acrescentando que o censo não tem caráter fiscalizatório, apenas estatístico.

Do total investido lá fora, US$69,196 bilhões (ou 74%) são investimentos brasileiros diretos, que englobam empréstimos entre empresas do mesmo grupo e firmas com participação igual ou acima de 10% do capital social de uma companhia. Neste quesito, existiam US$54,027 bilhões pertencentes a brasileiros no exterior (21% a mais do que em 2003), sendo pelo menos cerca de 60% alocados em paraísos fiscais, volume parecido com anos anteriores. De acordo com o BC, só nas Ilhas Cayman eram US$13,930 bilhões em 2004, seguido pelas Bahamas, abrigando outros US$7,825 bilhões.

De acordo com Liao, esses países servem como uma espécie de "passagem" para o mercado internacional, uma vez que oferecem menores custos, como o de tributos, para as empresas iniciarem seus investimentos. Para ele, esses recursos "certamente não ficam lá (paraísos fiscais)", mas o BC não consegue mapear para onde são transferidos depois.

Economistas observam também que atuar por meio de paraísos fiscais faz parte da estratégia de grande parte das empresas multinacionais.

- É uma forma de terem mais agilidade para movimentar o capital. Essa prática ocorre no mundo todo - afirmou a economista-chefe do BES Investments, Sandra Utsumi.

O censo do BC recebeu 11.245 declarações no ano passado, sendo 80% de pessoas jurídicas e 20% de físicas. Todos aqueles que residem ou têm sede no país e que possuem US$100 mil ou mais no exterior são obrigados a fazer sua declaração, sob o risco de multa. O governo quer saber qual é a riqueza dos brasileiros no exterior.

Câmbio baixo facilita envio de recursos

O setor terciário, que engloba os serviços financeiros, foi responsável por quase todo o volume de investimentos diretos em empresas no ano passado: US$51,720 bilhões, ou 96% do total deste segmento, mantendo a tendência de anos anteriores. Essa cifra é quase 20% maior do que a registrada em 2003, quando o setor concentrava US$43,319 bilhões.

Com os números positivos, especialistas reforçam que a economia brasileira continua se internacionalizando, apesar de ainda ter um longo caminho pela frente.

O economista-chefe do banco ABN Amro, Mário Mesquita, lembra que existe forte concentração de investimentos brasileiros no exterior em apenas alguns setores, como financeiro, siderúrgico e de bebidas. A tendência, no entanto, é manter o crescimento, mesmo que concentrado.

- O fortalecimento do real (frente ao dólar) favorece esse tipo de investimento, que fica mais barato. Não seria surpreendente se continuarmos vendo expansão - afirmou Mesquita.

Do estoque total de ativos apurado pelo BC em 2004, US$10,418 bilhões vieram de depósitos no exterior, cifra US$6 bilhões menor que a registrada um ano antes. O recuo, explicou Liao, veio por conta da liquidação, em 2004, dos contratos de câmbio relativos a remessas feitas antecipadamente pelo Tesouro Nacional para pagamento de juros e amortizações de dívida externa do governo no ano anterior.

Em junho último, o BC divulgou uma prévia sobre capitais brasileiros no exterior. O número estimado na época para 2004 era de US$94,731 bilhões. A diferença entre este montante e o valor fechado se deve a ajustes técnicos.

inclui quadro: recursos que vão para fora / total de capital brasileiro no exterior / o destino dos investimentos / os setores por país