Título: MEIRELLES: JURO AMERICANO NÃO AFETARÁ O PAÍS
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 07/11/2005, Economia, p. 18
Presidentes de BCs, reunidos na Suíça, dizem que a globalização favoreceu o crescimento e elogiam abertura
BASILÉIA (Suíça). O Brasil está preparado para um eventual choque externo, provocado pela alta nas taxas de juros da maior economia mundial, os Estados Unidos, segundo Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. O Federal Reserve (Fed, o BC americano) vem aumentando a taxa de juros desde junho de 2004, para conter a inflação e atrair investidores. A última alta foi no dia 1º de novembro ¿ de 0,25 ponto percentual ¿ elevando a taxa americana para 4% ao ano.
No passado, esses aumentos sacudiam os mercados emergentes. Ontem, na Basiléia, onde participou de encontro de presidentes de bancos centrais, Meirelles insistiu que o cenário hoje é diferente e que o Brasil está numa situação ¿bastante confortável¿.
¿ Se estou tranqüilo? Presidente de Banco Central, em geral, é preocupado por natureza. Isso é parte do cargo. Dito isso, nós estamos bastante confortáveis com o nível de melhora dos fundamentos da economia brasileira. Mas, de novo, atentos, e preocupados. Sempre! ¿ disse, rindo.
Segundo Meirelles, na reunião da Basiléia, os bancos centrais chegaram à conclusão de que a globalização tem um impacto positivo no crescimento das economias. A abertura de mercados, segundo ele, levou a um aumento da produtividade das empresas.
Meirelles destaca a situação fiscal brasileira
Sobre a situação do Brasil, o presidente do BC lembrou que, há dez anos, ciclos de elevação de taxa de juros americana trouxeram problemas para muitas economias emergentes, inclusive para o Brasil, com o aumento da aversão ao risco.
Ele argumentou que vários fatores protegem o Brasil do choque das variações das taxas americanas. A primeira proteção vem do câmbio flutuante. No passado, como as cotações do dólar eram controladas, lembrou, o mercado era mais instável. Outra barreira às oscilações externas é o regime de metas de inflação.
¿ Estes dois regimes (câmbio e inflação) são mais capazes de absorver choques e mudanças do que no passado. Outro fator que serve como amortecedor é a situação fiscal. O Brasil hoje tem um superávit fiscal consistente.
Meirelles lembrou a relação cadente da dívida pública como parcela do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de todas as riquezas produzidas no país em um ano).
¿ Temos todos o índices de solvência melhorando consistentemente, seja o índice de pagamento da dívida externa líquida sobre exportações ou a dívida externa líquida sobre o PIB. São condições muito diferentes do passado.
Economia global estaria mais preparada para choques
Por último, Meirelles citou os mercados mundiais, que estão mais flexíveis e, portanto, mais capazes de absorver o choque da alta de juros americana. Mas Meirelles não se arriscou a uma previsão:
¿ Certamente, os efeitos hoje serão muito diferentes do que no passado. Não se sabe se melhores ou totalmente diferentes. Vamos aguardar, vamos ver, é difícil prever. Os bancos centrais em geral, neste momento, não estão fazendo previsões a esse respeito ¿ comentou.
Outro dado tranqüilizador, segundo Meirelles, é o fato de o cenário da economia mundial continuar positivo, apesar do aumento do preço do petróleo. Quanto ao Brasil, para se proteger do choque, só resta uma coisa a fazer: manter sua atual política.
¿ O que nos compete fazer é o dever de casa. E estamos fazendo. O Brasil tem política fiscal sólida, política monetária comprometida com as metas de inflação, com política de câmbio flutuante e com uma melhora geral dos indicadores da economia brasileira.
Relatórios sobre bancos são rotineiros, diz Meirelles
Sobre um relatório do BC citado ontem pelo jornal ¿Folha de S. Paulo¿, que teria concluído que o BNDES avalia mal os empréstimos que concede, Meirelles disse:
¿ A finalidade da supervisão bancária é, através de um trabalho de inspeção, orientar as instituições para aperfeiçoarem seus mecanismos de julgamento e decisão. É um trabalho rotineiro feito pelo BC em todas as instituições financeiras.
Segundo o jornal, o BC determinou que os controles do BNDES sejam revistos. Meirelles insistiu no caráter sigiloso dos relatório e disse que esse tipo de documento é tão rotineiro no banco que raramente chega ao seu conhecimento ou da diretoria. Ele lembrou que o BNDES, para os padrões internacionais, tem uma taxa de inadimplência positiva.
Meirelles fugiu de comentar o relatório específico do banco de fomento, afirmando não ter lido o resultado do trabalho de supervisão, mas disse que essas recomendações são aplicadas a vários bancos.