Título: SALDO POSITIVO
Autor:
Fonte: O Globo, 08/11/2005, Opinião, p. 6
Acoincidência de agendas fez com que os presidentes George Bush e Luiz Inácio Lula da Silva abandonassem mais cedo a IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata. A visita do presidente americano a Brasília, no fim de semana, antecipou a partida dos dois e os poupou de participar do final de uma conferência irrelevante. A cúpula serviu apenas de palco para o show de exibicionismo de Hugo Chávez com seu factóide chamado Alba, ou Alternativa Bolivariana para as Américas, coadjuvado pelo ex-craque argentino Maradona.
A inexpressividade da conferência de Mar del Plata contrastou com o êxito da rápida passagem da comitiva de Bush por Brasília, quando mais uma vez ficou evidente a boa química no relacionamento pessoal entre os presidentes.
Prova de que quando as pessoas se entendem fica mais fácil a aproximação institucional, o comunicado conjunto da visita indica a distância que Brasil e Estados Unidos mantêm do estágio em que se encontra o diálogo (ou a falta dele) entre a Casa Branca e regiões da América Latina.
Um dado revelador é a referência feita à questão da Alca, Área de Livre Comércio das Américas, um ponto clássico de tensão entre Washington e Brasília, e outros países latino-americanos, e motivo pelo qual o encontro de Mar del Plata serviu apenas para cumprir um calendário previamente definido.
Segundo a nota comum, os dois países concordam em deixar o que os separa em segundo plano e dão prioridade ao que os une: uma aliança para forçar europeus e japoneses a afinal cortar subsídios agrícolas, causa da eternização da pobreza em países da África, e de distorções em mercados que contrariam os interesses de economias fortemente exportadoras de produtos agropecuários, caso do Brasil. Ao aceitarem cortar parte de seus próprios subsídios, os americanos se aproximaram dos brasileiros num embate em que está em jogo o futuro da Rodada de Doha, a ser em grande medida decidido em conferência da OMC, marcada para Hong Kong, na primeira quinzena de dezembro.
A proximidade entre George Bush e Luiz Inácio Lula da Silva é boa notícia para quem defende a estabilidade na América Latina. E as referências à democracia feitas no comunicado têm destinatário conhecido.