Título: Dirceu diz que Lula não gosta de discutir assuntos graves
Autor: Tatiana Farah
Fonte: O Globo, 08/11/2005, O País, p. 8 e 9
Em encontro com militantes em São Paulo, deputado diz que Gushiken `não era a melhor pessoa¿ para a comunicação, critica ministros, Mercadante e Tarso Genro
SÃO PAULO. Num desabafo a militantes petistas, o deputado José Dirceu (PT-SP) fez sua mais dura crítica ao presidente Lula ao se queixar das dificuldades que tinha para tratar com ele de problemas que ocorriam no governo durante o período em que foi ministro da Casa Civil. Dirceu contou que era difícil discutir situações graves com Lula, que sempre buscava assuntos mais amenos. O deputado, ameaçado de cassação, fez as críticas durante uma reunião, no sábado, com 54 militantes do grupo do ex-prefeito de Santos David Capistrano num hotel de São Paulo.
¿ O presidente Lula não gosta de ouvir assessores falando de problemas no governo. Ele prefere falar das realizações ¿ disse Dirceu aos militantes, a maioria egressa do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e ligada a Capistrano (morto na década de 90) e que foi para o PT na década de 80 graças à ação do ex-ministro quando era presidente do PT.
Entre os problemas graves a que se referiu, o ex-chefe da Casa Civil disse que estava o desempenho do ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto.
¿ Eu falava: presidente, está para estourar uma crise no setor de transportes. Ele vinha com um: ¿Olha, Zé, esse negócio aqui...¿, e mudava de assunto ¿ reclamou.
Dirceu criticou também as atuações do ex-ministro Luiz Gushiken e do ex-ministro da Saúde Humberto Costa. Para ele, Ciro Gomes deveria ser o ministro da Saúde ou ocupar uma das pastas mais importantes do governo.
¿ A comunicação foi uma grande falha do governo. Gushiken não era a melhor pessoa. Eu disse ao presidente: pega uma pessoa da área, publicitário ou um jornalista ¿ contou Dirceu.
¿Lula é de esquerda, mas é extremamente conservador¿
Ele criticou ainda as áreas de Saúde e Educação, o ex-ministro Tarso Genro e o senador Aloizio Mercadante. Disse que o presidente é ¿extremamente conservador¿. Contou que pedia ao presidente que evitasse falar tanto sobre família e valores religiosos.
¿ Lula é de esquerda, é sindicalista, mas é extremamente conservador ¿ afirmou o deputado.
Dirceu fez uma crítica a si mesmo, dizendo que deveria ter deixado o governo quando estourou o caso de seu ex-assessor Waldomiro Diniz.
¿ Mas o Waldomiro nunca foi meu braço direito. Quem me conhece sabe que eu não tenho braço direito, que eu não gosto disso de braço direito ¿ arrematou.
Dirceu admitiu que é difícil escapar da cassação e se disse decepcionado com a forma com que o PT se defendeu. Ele disse aos presentes ao encontro que sempre planejou sua vida para estar ao lado de Lula. Agora, se for cassado, deve abandonar a política partidária, voltar a advogar e escrever um livro. Sobre o PT, não disfarçou certa mágoa.
¿ Eu fiquei isolado no partido ¿ afirmou, destacando que se decepcionou com Mercadante, que endossou as críticas de Tarso Genro ao deputado:
¿ Tarso ficou falando besteira. Quem sabotou sua candidatura à presidência do PT foi o próprio Tarso Genro e não eu. Faltou garra aos dirigentes do partido no enfrentamento dos conservadores. Eles aceitaram as versões da direita para o caso do caixa dois e jogaram o PT na defensiva.
O ex-ministro fez muitos elogios ao governo Lula, dizendo que seu desempenho é melhor do que a gestão Fernando Henrique. Perguntado por que não teve uma posição mais contundente ao se defender em plenário, disse que não poderia acirrar mais a crise no governo e os ânimos dos partidos aliados.
Durante todo o evento, ele se mostrou abatido e disse várias vezes estar chateado com alguns integrantes do partido.
¿ Estou decepcionado ¿ disse Dirceu aos militantes, que se reuniram em repúdio à possibilidade de ele ter seu mandato cassado.
* Colaborou: Germano Oliveira