Título: Um ano terrível para Chirac
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 08/11/2005, O Mundo, p. 25
Em 1995, o candidato Jacques Chirac prometeu reduzir o que chamou de ¿fratura social¿ existente na França. Dez anos depois, o problema volta a assombrar o presidente, num ano particularmente difícil para ele.
Os distúrbios ocorrem num momento em que o governo está fragilizado, num cenário agravado pelo descontentamento dos franceses diante de políticas do governo e por disputas internas do partido de Chirac, a União para o Movimento Popular (UMP). Esse panorama, combinado a um problema de saúde e à queda na popularidade do presidente, torna cada vez mais improvável o sonho de um terceiro mandato.
O sinal de alerta acendeu em maio, quando os franceses disseram ¿não¿ à Constituição européia. A rejeição à Carta da UE foi interpretada como um grave sinal de descontentamento dos eleitores. O fato fez a popularidade do presidente despencar de 42% para 26% e precipitou a queda do premier Jean-Pierre Raffarin, substituído por Dominique de Villepin. Levou ainda Chirac a surpreender o país ao convidar Nicolas Sarkozy, seu maior rival dentro da UMP, para assumir o Ministério do Interior.
As manifestações de descontentamento não pararam por aí. Em outubro, a França enfrentou uma greve geral que levou um milhão de pessoas às ruas num protesto contra a política de salário e empregos.
A revolta dos imigrantes se soma a esse cenário de descontentamento geral. Jovens muçulmanos, que aplaudiram a forte oposição do país à guerra no Iraque, sentiram-se decepcionados após a aprovação da chamada lei do véu, proibindo o uso de símbolos religiosos ostensivos em repartições públicas, em fevereiro de 2004. E as condições precárias em que imigrantes vivem ficaram mais claras durante uma série de incêndios em prédios de famílias de baixa renda em Paris que mataram 62 pessoas.
Além disso, este ano Chirac sofreu um acidente vascular que o obrigou a ficar internado por uma semana. Depois disso, muitos decretaram aí seu obituário político. E com carros queimando em vários pontos do país, parece difícil fazer sua carreira ressuscitar.