Título: Toque de recolher contra violência
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 08/11/2005, O Mundo, p. 25
Governo francês autoriza subúrbios a adotarem medida. Distúrbios aumentam e causam primeira morte
Uma rádio francesa de grande audiência pôs ontem no ar várias vozes ¿ de homens mulheres, jovens, idosos ¿ repetindo a frase:
¿ A banlieue (periferia) é a França.
Foi um recado aos que ainda duvidam que bolsões de pobreza que proliferam em torno de Paris e de outras belas cidades ¿ com populações marginalizadas e algumas vezes encobertas pelo véu islâmico ¿ também fazem parte da França. O país começava ontem a contabilizar os estragos da revolta nas periferias, uma espécie de Maio de 1968 dos subúrbios, que explodiu depois que dois adolescentes ¿ imaginando que estavam sendo perseguidos pela polícia ¿ se refugiaram numa central elétrica e morreram eletrocutados, em 27 de outubro.
Um total de 9.500 policiais foram mobilizados para controlar a violência no país, mas a pior madrugada foi a de ontem: 1.408 carros foram incendiados em 274 cidades em várias partes da França, 36 policiais ficaram feridos e 395 pessoas foram presas. Para complicar a situação, morreu ontem a primeira vítima dos distúrbios. Trata-se de Jean-Jacques Le Chenadec, de 61 anos, que estava há dias em coma depois de ser agredido com socos durante confrontos em Stains, na periferia de Paris, sexta-feira passada.
Depois da 11ª noite consecutiva de violência, o governo endureceu o discurso. À noite, o primeiro-ministro Dominique de Villepin autorizou prefeitos a decretarem toque de recolher. O anúncio foi feito pouco depois de um grupo atacar um ônibus vazio em Toulouse e enfrentar a polícia com pedras e bombas caseiras. O prefeito de Raincy (subúrbio de Paris), Eric Raoult, da UMP, partido do presidente Jacques Chirac, nem hesitou: adotou a medida, ¿para evitar um drama¿.
Moradores cada vez mais nervosos
A França parecia ontem à beira de uma histeria coletiva.
¿ Estou com raiva, muita raiva. Sou socióloga. Venho da Argélia e nos discriminam, ainda mais quando somos intelectuais. Estão acabando com as escolas (da periferia), acabando. Sabe o que é isso? ¿ perguntava aos gritos uma mulher que se identificava como Jamila, pelo telefone, num programa de rádio ao vivo.
A mulher parecia incontrolável. O locutor se apressou a se despedir dela com um ¿Jamila, merci, salut¿.
A revolta da periferia revelou a existência de duas Franças. Uma rica e glamourosa, como Paris. A outra, pobre e marginalizada, habitada essencialmente por franceses vindos de ex-colônias, como Argélia e Marrocos. Essa França se sente discriminada não apenas por ser pobre, mas também por ser árabe e muçulmana. Nada disso é novo para Faudil Ziani, francês de origem argelina, de 33 anos, que aos 20 já liderava quebra-quebras na periferia de Les Lys, onde dirige uma associação de moradores. Ontem, num prédio invadido na divisa entre Paris e a banlieue, Ziani e vários outros líderes de associações de moradores discutiam o que fazer na sede improvisada do Movimento da Imigração e da Periferia.
¿ Algumas pessoas têm na carteira de identidade a data de entrada na França. É, na verdade, a data de nascimento ¿ revoltou-se Ziani.
Para ele, o que mais choca é que nada mudou. Já Nagib, de 43 anos, nascido na Argélia, afirmou:
¿ Sempre recusei a nacionalidade francesa, porque a França não me reconhece como francês. Vou ser sempre árabe. Por que fico aqui? Porque tenho o direito de viver aqui.
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