Título: `O risco de que o problema exploda existe em toda parte¿
Autor: Vivian Oswald
Fonte: O Globo, 08/11/2005, O Mundo, p. 26
BRUXELAS. A onda de protestos violentos que vem sacudindo a França pode se espalhar pelo resto da Europa, mas em menor escala, segundo o especialista em migração e exclusão do Departamento de Sociologia da Universidade Livre de Bruxelas (ULB), Andrea Rea.
Os problemas de integração das comunidades de imigrantes é constante na Europa. Existe o risco de os protestos violentos se espalharem?
ANDREA REA: O risco existe, principalmente nos lugares onde a situação de precariedade em que vive a população é complicada como na periferia de Paris.
Já foram registrados casos em Bélgica e Alemanha. Pode acontecer nestes países o mesmo que está ocorrendo na França?
REA: Na Bélgica e na Alemanha, por exemplo, onde há grandes comunidades de imigrantes, o problema também é grande, mas a dimensão é outra. O trabalho das associações de moradores e das comunidades menos favorecidas é mais importante. Existe uma intermediação muito maior entre as populações locais e as autoridades. Portanto, o controle social é maior. No espaço político belga, existe uma participação maior nos parlamentos regionais, nas prefeituras. O risco de que o problema exploda existe sim em toda a parte, mas não com a mesma intensidade que se viu na França.
A intensidade dos protestos pode estar relacionada à dura reação do governo francês?
REA: As palavras do ministro (do Interior francês, Nicolas) Sarkozy foram equivocadas e violentas. Foi uma resposta desmedida. Sim, é claro que existe uma minoria que vem agindo de forma violenta na periferia. Mas não se pode generalizar e dar uma resposta que tenha implicações sobre as comunidades de trabalhadores desfavorecidos e honestos que vivem nos arredores de Paris. É preciso restabelecer a confiança dessas populações.
Como os países europeus deverão agir para evitar novas ondas de revolta?
REA: O que existe na França mais do que em outros países europeus é a ausência de reconhecimento da diversidade. Na França, não se reconhecem os outros. As populações não se sentem reconhecidas, o que alimenta os ressentimentos que acabam por provocar este tipo de ação violenta. É preciso permitir uma mistura maior das pessoas, restabelecer a confiança das comunidades e o diálogo. Os ministros precisam visitar as regiões mais pobres, mostrar que estão ali o tempo todo e não apenas durante os períodos eleitorais. Talvez reforçar o diálogo seja tão ou mais importante do que políticas de emprego, por exemplo. (Vivian Oswald)