Título: Violência cruza fronteiras e assusta a Europa
Autor: Vivian Oswald
Fonte: O Globo, 08/11/2005, O Mundo, p. 26
Cinco veículos são queimados no centro de Bruxelas. Em Londres, Blair admite: `Todos estão preocupados¿
BRUXELAS. A escalada da violência na França já preocupa a vizinhança. A Bélgica e a Alemanha estão em alerta e temem que os movimentos de revolta atravessem suas fronteiras. Na madrugada de segunda-feira, cinco veículos foram incendiados no bairro de Saint-Gilles, nas redondezas da estação Midi, no centro de Bruxelas. Autoridades belgas minimizaram a importância do incidente e descartaram os riscos de que os distúrbios da França se repitam no país.
Embora líderes europeus identifiquem circunstâncias únicas na França, cidades com grandes populações de imigrantes, como Londres, Amsterdã e Roma, estão atentas a sinais de distúrbios.
¿ Todos estão preocupados com o que está acontecendo ¿ disse ontem o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, acrescentando, no entanto, que a situação em seu país é ¿em alguns aspectos diferente¿.
Em Roma, o líder de oposição Romano Prodi foi acusado de incitar a violência ao afirmar que cidades italianas poderiam sofrer distúrbios semelhantes aos da França.
¿ Temos os piores subúrbios da Europa ¿ disse Prodi, exortando o governo a tomar medidas urgentes para melhorar a vida nessas áreas se quiser evitar futuros problemas.
Desigualdades são visíveis em toda a Europa
Para Johan Leman, professor de Antropologia na Universidade de Leuven, na Bélgica, o risco de contaminação existe e pode vir justamente pela fronteira francesa. Em sua avaliação, mais do que provocada pela situação dos imigrantes em seu país, a violência pode ser trazida da França ou gerada por grupos oportunistas.
¿ Não seriam atos espontâneos como na França. A situação dos imigrantes na Bélgica é diferente, porque existe um diálogo maior entre as comunidades e as autoridades. As redes de proteção social funcionam melhor. Mas a cidade francesa de Lille, onde foram registrados graves atos de violência, fica a apenas uma hora de carro de Bruxelas. Grupos dentro da Bélgica também podem querer se aproveitar do momento para manifestar sua revolta ¿ afirma Leman.
Se a integração dos imigrantes na Bélgica é aparentemente mais bem resolvida do que na França, nas periferias de Bruxelas o problema se repete. É alto o índice de jovens desempregados no país, principalmente nas comunidades estrangeiras. Segundo Leman, em Molenbeek, onde ele trabalha, apenas um entre cada cinco moradores em idade de trabalhar tem emprego, e 30% da população têm menos de 18 anos.
Em toda a Europa as desigualdades são visíveis, e não só nas periferias. Segundo a Comissão Européia, a grande Londres tem um Produto Interno Bruto (PIB) per capita (soma de todas as riquezas produzidas pela população calculada por habitante) 315% maior que a média da União Européia. Já na cidade polonesa de Lubelskie o PIB per capita equivale a 32% da média da região. A Comissão disse estar estudando como ajudar a reparar os danos na França com fundos de um programa urbanístico do bloco com orçamento de 700 milhões de euros.
Com agências internacionais