Título: Caro e elitista
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Fonte: O Globo, 12/11/2005, Opiniao, p. 6

A greve de fome do bispo Dom Luiz Cappio contra o Projeto de Transposição do Rio São Francisco pode não ter atingido seu objetivo maior, o arquivamento do mais caro projeto do governo. Mas o esforço chamou a atenção para a importância de um processo participativo. Também reabre para discussão o relatório do Banco Mundial, que diz: "Estimamos que mais de 70% dos custos deste projeto são para irrigação e não para suprimento de água de uso doméstico. Consideramos que o uso de recursos públicos só se justifica se este projeto proporcionar uma grande contribuição para eliminar a pobreza rural no Nordeste. Neste caso, precisa incluir medidas específicas que garantam a inclusão dos pobres."

Especialistas entendem que a transposição é uma obra cara, que não atende às necessidades dos pobres do Nordeste e não traz benefícios para os dois milhões de agricultores familiares do sertão nordestino, quase metade do total brasileiro. Agricultores familiares à margem do São Francisco não têm acesso à água que teoricamente está sobrando do rio. E isso não vai mudar! A transposição vai beneficiar o agronegócio, indústrias e populações dos centros urbanos, em detrimento dos agricultores familiares pobres e da população do semi-árido, à semelhança do que acontece hoje na Bahia, onde os maiores beneficiados são as grandes empresas de exportação de produtos agrícolas.

Do modo como foi proposto, o projeto não mudará a péssima distribuição da água no semi-árido. Pelo contrário, continuará contribuindo para o ciclo de empobrecimento das populações da área rural do semi-árido brasileiro e de enriquecimento do agronegócio e dos grandes exportadores. O mais impressionante é que garantir aos excluídos o acesso à água de forma sustentável custaria bem menos que transpor o Velho Chico.

MARTA ANTUNES é economista do Programa Segurança Alimentar da ActionAid Brasil.

Agronegócio e exportadores serão os grandes beneficiados