Título: Debate irracional
Autor:
Fonte: O Globo, 12/11/2005, Opiniao, p. 6

Se alguém ainda não entendia por que o projeto de transposição de águas do Rio São Francisco, para atenuar os efeitos da seca no semi-árido nordestino, não consegue sair das pranchetas desde o Império, o último lance dessa novela, a teatral greve de fome do bispo Luiz Cappio, serve de valiosa ajuda.

Por mais lógica que seja a idéia, por sólidos que sejam os argumentos técnicos a favor do empreendimento, o tema desencadeia paixões políticas, irracionais, e inspira até atos de irresponsabilidade pastoral como a de dom Luiz Cappio.

Os onze dias de greve de fome do religioso parecem ter provocado o que movimentos de ambientalismo radical e pressões de políticos de estados banhados pelo rio não haviam conseguido: paralisar o projeto. Tem-se a impressão de que o governo se curvou à chantagem de dom Luiz, que ameaça retomar a greve de fome caso o assunto volte a tramitar no governo e no Congresso. Mesmo que o próprio Vaticano haja reprovado a sua atitude. Assim, ficam em segundo plano todos os dados técnicos da questão, que deveriam ser os únicos a servir de base para uma decisão sobre o projeto.

Antes de aparecer em cena Luiz Cappio, o governo redimensionou a idéia da transposição, convertendo o projeto numa obra de integração de bacias hidrográficas - a do São Francisco com as de rios do agreste. Mais do que semântica, essa mudança implicou uma redução no volume de água a ser transferido para o interior do Nordeste, por meio de dois troncos.

Nessa última versão, apenas pouco mais de 3% da vazão do São Francisco serão - ou seriam - transferidos para o semi-árido, em benefício, calcula-se, de aproximadamente 12 milhões de pessoas. Comprova-se que os projetos de irrigação presentes e futuros, às margens do rio, não serão afetados.

Mas é preciso um mínimo de racionalidade de todos. Até apoio a uma emenda constitucional para garantir recursos à revitalização do Rio São Francisco o governo já concedeu. Se o assunto continuar a ser tratado de forma maniqueísta, milhões de nordestinos continuarão desassistidos.

Greve do bispo parece ter vencido o governo